i gave my life to a simple chord

segunda-feira, maio 24, 2004

Colunas, livros e o meu salário atrasado

O pessoal anda reclamando que eu só falo da banda agora e achando que eu parei de escrever para sempre. Mas não, gente, nada disso. Eu saí da Tribuna da Imprensa porque fazia muito tempo que eu não via a cor do dinheiro e cansei de mendigar meu salário, então eu fiz com eles o que eles fizeram comigo: simplesmente parei de mandar os textos. E como eles são super profissionais, simplesmente botaram outra pessoa no meu lugar depois de 3 semanas de sumiço. E ainda não me pagaram, mas o meu advogado - acredite, eu tenho um - está cuidando disso. Porque eu não faço caridade nem trabalho de graça. Vocês ainda podem me ler quinzenalmente no site da TPM, que é muito melhor do que um jornalzinho do Rio.

E pra quem achava que era lenda, finalmente o Vida de Gato vai sair, depois de uma enrolação absurda, primeiro com editoras, aí quando resolveu-se a editora, com a capa, aí quando consegui a capa que queria, com o tamanho da orelha, mas ele finalmente está saindo. Olha que bonita a capa.

Lançamento em junho, provavelmente. Eu aviso.

A orelha teve que ser impiedosamente cortada, então aqui vai o texto original, escrito pelo Mário Bortolotto, só aqui, no blog morto mais ativo do planeta.

“Oi, Marião, será que você não escreveria a orelha do meu livro novo?”
Era a Clarah Averbuck ao telefone. Porra, sou o mó fã do texto dela. E ela gosta (gostar é um termo ameno) do Bukowski e do Leminski e do Fante (sua santíssima Trindade) e é amiga de grandes amigos por quem tenho a mó consideração. Respondi simplesmente: “Claro, porra. Mó honra”. E aí fiquei pensando : “Porque a Clarah me escolheu pra orelhar o livro dela? Logo eu que tenho fama de machista e sendo ela uma escritora e bem...” Aí concluí: Mas eu não sou machista. Essa é uma fama injusta. Eu sou homem e gosto de mulheres como acho que um homem deveria gostar. Algumas mulheres politicamente corretas e leitoras de Maitena me tiram de machista. Acontece o mesmo com o nosso ídolo (meu e da Clarah) Bukowski. Mas a Clarah não é uma escritora qualquer e nem uma mulher qualquer. E esse livro novo dela não deixa dúvidas disso. Assim como Kerouac enlouquece em São Francisco por causa de sua Mardou Fox em “Os Subterrâneos” em uma escrita alucinante, apaixonante e totalmente destrambelhada, Clarah faz o mesmo nesse “Vida de Gato” com o seu Antonio numa São Paulo que ela repudia e ama com a mesma intensidade. “Vida de Gato” é “Os Subterrâneos” de Clarah Averbuck, essa escritora Gaúcha que não tem medo da emoção e escreve com o coração acorrentado ao teclado do computador. Esse livro é uma declaração radical de amor ao seu homem (no caso, Antonio), por quem ela está enlouquecidamente apaixonada. E quer deixar isso claro ao longo desse pequeno (número de páginas) e apaixonante livro. Não é um livro pra quem morre de amor. É sim um livro pra quem quase morre de amor e não tem medo de viver de amor, mesmo rejeitada e penabundeada, a personagem Camila não se entrega. E bebe desvairadamente (“pra colocar os pensamentos em ordem, em fila, pra chegarem no guichê um de cada vez”. Isso é ótimo.) sozinha no seu bar preferido ou com o amigo Miranda fazendo a tour dos botecos. E vai procurar o seu homem, e quer que o cara se explique e espera algo mais do cara pra quem se entregou (“eu quero o seu amor, mas não quero emprestado, ter hoje e devolver amanhã”). Sem dinheiro, sem casa e sem seu homem, Camila não titubeia. Sabe o que quer e só faz o que quer. Como deveria fazer uma verdadeira mulher. Clarah-Camila é do tipo de mulher que encara todas e não se entrega nunca. E sabe que tem um preço a pagar por sua escolha. E não tá nem aí. Clarah usa seu alter ego quase que levianamente porque ninguém tem dúvidas de sua identidade. É tudo despudoradamente verdadeiro, mesmo que seja fictício, sacaram?
Machistamente e pra fazer a alegria de minhas detratoras sem cérebro, eu diria provocativamente que a Clarah escreve tão bem que “escreve como um homem”. Bobagem. Eu as provoco em outra ocasião. Oportunidades não me faltam. Clarah escreve sim como uma mulher. Uma puta mulher de verdade. Eu, como leitor inveterado e destituído de pequenos preconceitos fico feliz pra caralho de ler uma escritora assim. E espero como nossos amigos felinos (meus e da Clarah) ter pelo menos mais seis vidas pra encontrar escritoras desse naipe. Porque essa, meu fígado tá avisando que já era.

- Mário Bortolotto -


.: Clara Averbuck :. 9:30 PM

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