i gave my life to a simple chord

sexta-feira, agosto 29, 2003

Saudades do Rio
[22.ago.03]

vetaram a minha BELISSIMA ilustracao de PAINT ART



São Paulo é uma cidade venenosa. Em vários sentidos, em todos os sentidos possíveis e imagináveis.

Começando pelo ar, que é essencial para a vida, toda a vida. O ar é podre, entope os poros, suja a pele, encarde a alma. O ar é venenoso. O ar não tem jeito.

São Paulo é a cidade dos desesperançados, dos que largaram suas raízes, migraram de suas terras esperando uma vida melhor e tudo que encontraram foi cimento e ar sujo, asfalto esburacado, ônibus velhos balançando aos solavancos, pichações que agridem os olhos e não respeitam nem os templos dos deuses alheios. Tanto os miseráveis quanto os meninos do interior que esperam uma vida melhor vêm para cá em busca de algo, alguma chance, alguma esperança e só encontram um gosto amargo e uma saudade de casa, da inocência. São Paulo é a cidade onde quem não tem dinheiro, está fodido. Um abismo social enorme, os pobres morando nas bordas e os ricos morando em mansões no Morumbi.

São Paulo não tem horizonte. Se você está estressado, cansado, irritado, não tem o que fazer a não ser andar pelas ruas sujas ouvindo o barulho dos carros, olhando o céu tóxico que às vezes até fica bonito, e de tanta poluição cria uns rosas absurdos no pôr-do-sol. Bonito, mas venenoso. Tentando se esconder em praças banguelas com suas árvores mirradas, mil prédios em volta, como que se curvando, oprimindo, sufocando. Não tem para onde fugir.

São Paulo é uma cidade venenosa, uns pisando na cabeça dos outros, uma ou outra rara amizade nas quinas da cidade, sem competição, sem inveja. O maior veneno de São Paulo é a inveja, a inveja de quem faz alguma coisa, alguma diferença no mundo, de quem consegue não ser engolido pelo concreto. Porque muitos são engolidos pela grande metrópole-província e não há jeito de esquecer disso olhando para o mar, dando uma voltinha na praia, tomando uma água de coco no quiosque, porque não há mar, não há brisa, não há um descanso para olhos feridos, doloridos, ardendo de tanto veneno. Punhais nas costas, logo depois do sorriso cínico e do beijinho no rosto. São Paulo é uma cidade venenosa.

Uma cobra, uma puta que te seduz no escuro, promete mil coisas e quando você chega perto ela não passa de uma velha sem dentes, as sobrancelhas falhadas, a carne flácida, o hálito azedo causando repulsa e a vontade de se mandar correndo. Cidade dos trapaceiros, dos interesseiros, dos falsos. Cidade de cimento e veneno.

Cansei.

Cansei do veneno, cansei de tudo, cansei do asfalto sujo, do barulho, das luzes. Cansei dos ônibus, das bandas, do metrô lotado, das ruas, do trânsito, do complexo equivocado de cosmopolita, do ar, do clima, da inveja. Cansei de tudo. Quero me mandar. Empacotar tudo e me mandar, assim que der. Assim que der, eu vou.

.: Clara Averbuck :. 9:03 PM

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