i gave my life to a simple chord

sexta-feira, agosto 29, 2003

O Cuzão

*Publicado originalmente em 25 de julho como "O Bundão", que eu não estava afim de chocar os leitores do jornal

foi o marcelo que fez



Agora que somos uma família (contando, é claro, os gatos), resolvemos, um pouco tarde, procurar uma casa maior do que nosso apartamento-de-um-quarto-de-frente-para-a-feira-numa-rua-barulhenta, perto do centro da cidade. Rodamos como loucos enquanto eu ainda estava grávida, vimos milhares de casas, todas com algum defeito. Balançávamos a cabeça, desolados, e continuávamos a busca pela Casinha Perfeita. Finalmente encontramos, e ela era branca, e ela era em uma rua silenciosa, e ela era linda, e soubemos, mesmo antes de entrar, que era ali.

Marcelo juntou documentos, convenceu o fiador, enfrentou bravamente a burocracia do mal e foi fazer uma reunião com o advogado responsável pelo imóvel. Ressaltando que não somos o que se pode chamar de pessoas arrumadinhas, sabe, nós somos roqueiros e nos parecemos com pessoas que gostam de rock. Nada de piercings pendurados na cara ou moicanos, nada de exageros. Só que eu não uso terninhos, a não ser que esteja me sentido mod, e o Marcelo não é um penteadinho fedendo a loção de barba, diferente do Senhor Advogado que o atendeu. Ele sim, fedia a loção de barba e usava um vidro inteiro de gumex no cabelo. E eu que achava que ninguém mais usava gumex. Se fosse só no cabelo, tudo bem, mas aparentemente o gumex vazou para o cérebro do tal indivíduo. Vamos chamá-lo de O Cuzão, por razões óbvias. O Cuzão olhou para a jaqueta de couro do Marcelo, para o bigode do Marcelo, para o All Star do Marcelo, como se ele estivesse vestindo um macacão sujo da prefeitura, aqueles que os lixeiros usam. Ele usava um terno bem alinhado, sapatos impecavelmente engraxados, a pele cuidadosamente raspada com Gillette Mach 3 e aquele cabelo absurdo lambido e grudado na cabeça, com a marquinha do pente e uns cachinhos que sobravam na nuca, também duros de gumex.

Depois de apresentar o contrato, o Cuzão olhou de novo com aquele nojinho e aquele ar de superioridade que só os legítimos Bundões conseguem ter e perguntou:

- Você toca alguma coisa?

Marcelo, todo feliz, respondeu que sim, guitarra e violão. Talvez O Cuzão não fosse tão Cuzão, afinal de contas. Mas era, e respirou, contrariado.

- Vvocês não vão ficar tocando guitarra em casa, né? Porque o inquilino anterior trouxe muitos problemas. Eles tocavam rock o dia inteiro, faziam festas, levavam pessoas, ficavam cheirando cocaína até de manhã. Os vizinhos reclamavam muito. Vocês não vão fazer essas coisas, não é mesmo?

Marcelo, rangendo os dentes, respondeu que se ele tocasse um acorde alto, acordaria a Catarina. O Cuzão ignorou, como se o fato de ter uma criança recém-nascida em casa não impedisse que nós, os roqueiros sujos, mal-vestidos e pervertidos, ficássemos tocando rock muito alto e usando drogas e fazendo orgias e incomodando os vizinhos. Aliás, eu tenho uma dúvida. Como eles sabiam que as pessoas cheiravam cocaína até de manhã? Tinha um buraco na parede? Uma câmera? Os vizinhos tinham um binóculo? Ou será que os inquilinos anteriores simplesmente tinham cara de quem fazia essas coisas? Eu acho que sim.

De qualquer forma, o Cuzão entregou o contrato e Marcelo disse que levaria para casa, para analisar, e traria de volta com uma proposta de melhoria na casa, que apesar de ser perfeita, não tem banheiro no andar de cima. Foi mencionar “reforma” que O Cuzão literalmente arrancou o contrato de volta.

- Não senhor. Nada de reforma. Ou assina o contrato como está e entrega na segunda-feira, ou se manda. Vai, vai embora. Não quero mais alugar essa casa para você. Volta aqui com o seu pai. Tem um monte de gente querendo esse imóvel. Se manda.

Isso tudo enquanto espanava a mãozinha manicurada no ar, como quem espanta uma mosca. Cuzão. Marcelo, urrando por dentro, apaziguou O Cuzão e seu ataque de bundice e recuperou a papelada, com vontade de rasgar tudo, queimar e entregar junto com uma fralda suja da nossa filha na porta do escritório d’O Cuzão.

No fim, tudo deu certo, a casa é nossa e teremos que apresentar uma proposta formal à proprietária sobre o tão temido banheiro. Se pudéssemos, também avisaríamos a pobre senhora de que o advogado que ela escolheu para administrar seu imóvel ficará para sempre imortalizado em nossos corações como O Cuzão. Meu objetivo aqui é eternizar O Cuzão, seu cabelo penteadinho com gumex e seu preconceito babaca contra qualquer pessoa que seja diferente dele e sua vida de advogado engomado. Talvez um dia, daqui a muitos anos, quando ele for velho e não sobrarem mais cabelos para pentear nem clientes nem bdentes, ele abra um livro, encontre esse texto e se arrependa amargamente. Tomara. Não vai acontecer, mas tomara.
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Apêndice

A casinha estava longe de ser perfeita. Quando os especialistas (leia-se encanadores e eletricistas) foram fazer a vistoria, descobriram que estava tudo podre por dentro. Tudo. A água estava cortada da rua. O relógio de luz havia sido roubado. A Eletropaulo acusava uma dívida de 700 reais. O encanamento estava completamente destruído. Tudo podre. Tudo errado. O Cuzão nos engambelou. Marcelo fez um super relatório, com fotos, com tudo, pedindo rescisão de contrato. Eles tiveram que aceitar. Claro que não foi fácil assim, mas isso fica para a semana que vem, só para obrigar vocês leitores a comprarem o jornal. Sexta-feira, hein. Tribuna da Imprensa. Não esqueçam. Estou falando com vocês, leitores do blog. O jornal é baratinho. Não tenho decência nenhuma, estou mendigando. Leite da Catarina, não esqueçam. Leite e fraldas. Tô pedindo, não tô roubando.

.: Clara Averbuck :. 9:01 PM

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