i gave my life to a simple chord

quarta-feira, março 26, 2003

Waking the dead

Olha, eu falo com os mortos. Eles não respondem, se respondessem eu ia estranhar bastante, mas isso não tem importância. As pessoas não vão à igreja e falam com o deus lá delas, com os santos e santas, anjos, arcanjos e tudo mais? Então eu também posso. Falo com os caras, aqueles caras que eu leio, os três e uns outros, às vezes. Esses dias eu tava falando com o Buk, esperando sozinha em um aeroporto, sozinha por oito horas com essa barriga sem conseguir andar direito. Sozinha com o Buk.

Eu disse:

é, meu velho, tô aqui sozinha, o mundo está parado, minha batata da perna dói, meu filho se mexe. Meu homem tá longe, as unhas dos pés descascam, as pessoas continuam se entender nada mas eu sei que você entende aí no Céu da Cirrose, que não tem nada a ver com a cirrose em si, mas você sabe. Dizem que eu roubei o fim do seu livro, mal sabem eles que é inspirado no começo de outro, que nem é seu, "apaguei a luz e fui dormir", quem não sabe nem merece ter língua ou dedos ou opinião, porque não sabe nada. Tolos, todos tolos não entendem nada, não sabem que nós escritores acabamos sempre mandando tudo às favas pra escrever, escrever, escrever. O mundo é cheio de escritores que não escrevem e ganham dinheiro. E os escritores que escrevem ficam pobres. É, meu velho, o mundo fica girando, as pessoas só falam mas não fazem nada, querem nos sugar, querem nos pegar no braço, querem saber, saber, saber, querem que a desgraça assole nossas vidas, querem que nossas obras sejam queimadas em praça pública e pisoteadas, querem que a gente se foda bem bonito para apontarem e rirem da nossa cara lá debaixo de suas vidinhas de merda. Mas coitadas, coitadas das pessoas, ninguém nos derruba, meu velho. Uma vez me disseram que nada é forte o bastante pra derrubar a namorada do Arturo e eu acreditei. Agora fodeu, agora eu só sei ficar de pé.

O Buk respondeu com um poema quando abri o livro aleatoriamente. Vocês eu não sei, mas eu falo com os meus mortos. E às vezes eles respondem.

a trituração

muito
muito pouco

muito gordo
muito magro
ou ninguém.

gargalhadas ou
lágrimas

odiadores
amantes

estranhos com rostos como
as costas de
percevejos

exércitos correndo por
ruas de sangue
acenando garrafas
baionetando e fodendo
virgens.

ou um cara velho num quarto barato
com uma fotografia da M. Monroe.

há uma solidão tão grande nesse mundo
que você pode vê-la no movimento lento dos
braços de um relógio.

pessoas tão cansadas
mutiladas
ou pelo amor ou por nenhum amor.

as pessoas não são boas umas às outras
num todo.

os ricos não são bons para os ricos
os pobres não são bons para os pobres.

temos medo.

nossos sistema educacional nos diz
que podemos todos ser
vencedores rabudos.

não nos disseram sobre
as sarjetas
ou os suicídios.

ou o terror de uma pessoa
doendo em um lugar
sozinha

intocada
infalada

regando uma planta.

as pessoas não são boas umas às outras.
as pessoas não são boas umas às outras.
as pessoas não são boas umas às outras.

acho que nunca serão.
não as peça para ser.

mas às vezes eu penso sobre
isso.

as contas balançarão
as nuvens enuviarão
e o assassino decapitará a criança
como se mordesse uma casquinha de sorvete.

muito
muito pouco

muito gordo
muito magro
ou ninguém

mais odiadores do que amantes.

as pessoas não são boas umas às outras.
talvez se elas fossem
nossas mortes não seriam tão tristes.

enquanto isso eu olho para as jovenzinhas
impedirem
flor da possibilidade.

tem que haver um jeito.

certamente há um jeito que ainda não
pensamos.

quem botou esse cérebro dentro de mim?

ele chora
ele reclama
ele diz que há uma chance.

ele não diz "não."
.
.
.
the crunch

too much
too little

too fat
too thin
or nobody.

laughter or
tears

haters
lovers

strangers with faces like
the backs of
thumb tacks

armies running through
streets of blood
waving winebottles
bayoneting and fucking
virgins.

or an old guy in a cheap room
with a photograph of M. Monroe.
there is a loneliness in this world so great
that you can see it in the slow movement of
the hands of a clock.

people so tired
mutilated
either by love or no love.

people just are not good to each other
one on one.

the rich are not good to the rich
the poor are not good to the poor.

we are afraid.

our educational system tells us
that we can all be
big-ass winners.

it hasn't told us
about the gutters
or the suicides.

or the terror of one person
aching in one place
alone

untouched
unspoken to

watering a plant.

people are not good to each other.
people are not good to each other.
people are not good to each other.

I supposed they'll never be.
don't ask them to be.

but sometimes I think about
it.

the beads will swing
the clouds will cloud
and the killer will behead the child
like taking a bite out of an ice cream cone.

too much
too little

too fat
too thin
or nobody.

more haters than lovers.

people are not good to each other.
perhaps if they were
our deaths would not be so sad.

meanwhile I look at young girls
stems
flowers of chance.

there must be a way.

surely there must be a way we have not yet
thought of

who put this brain inside of me?

it cries
it demands
it says that there is a chance

it will not say
"no."




.: Clara Averbuck :. 7:51 PM

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