i gave my life to a simple chord

segunda-feira, março 24, 2003

Abraçando árvores

Não sou exatamente o tipo de pessoa fácil de convencer. Quando eu não quero fazer alguma coisa, pode ter certeza que não vai acontecer. E se eu quiser, mas quiser muito mesmo, vou conseguir. Se depender só de mim, claro. Ou melhor, essa era a realidade até pouco tempo. Porque o mundo jamais conheceu uma pessoa tão insistente quanto o meu namorado. Ele simplesmente me convence a fazer qualquer coisa, em qualquer lugar e por mais que eu esperneie, odeie, fique puta e faça biquinho, acabo cedendo - não sem reclamar, mas acabo cedendo. E ele é cruel, meus amigos. Não pensem que estou dramatizando (estou, claro), mas ele me obriga a fazer coisas terríveis. Inomináveis. Coisas que ninguém deveria ser obrigado a fazer, muito menos uma senhora grávida e sedentária convicta como eu.

Fomos visitar meus pais em Porto Alegre (meu pai já estava me chantageando há tempos, "minha filha, não sabemos mais como você se parece", e eles precisavam conhecer o pai do neto deles, afinal de contas) e aproveitamos para dar um pulinho na serra gaúcha. Tola que sou, imaginei um hotelzinho fofo, uma lareira (vazia e desativada, claro, era verão e fazia um puta calor), uma cama confortável, um vinho gaúcho, preguiça, luxúria, aquelas coisas.

Idiota, monga. Esqueci que ele adora se enfiar no mato. Ele gosta de aventura, mato, montanha, trilha. Meu pior pesadelo.

NÃÃÃÃ
pânico


No primeiro dia, fomos direto descer a escada do Caracol, uma puta cascata de 131 metros de altura. Não é uma escada normal, não senhor, uma escadinha assim fácil de descer. São 927 degraus. Novecentos e vinte e sete. Eu, que reclamo até para descer da cama, desci aquilo tudo com o Marcelo na frente, saltitando como uma criança feliz na véspera de natal, feliz com seu contato com a natureza enquanto eu me coçava por causa da grande variedade de insetos. Mas tudo bem, era o primeiro dia, o ar era puro, os bugios pulavam nas árvores, dane-se, até que foi divertido. Para descer. Na subida, começou o sofrimento. Eu subia dez degraus e minhas pernas doíam e minhas costas dobravam. Quando as pernas paravam de doer e as costas paravam de dobrar (estou virada em um S), eu tinha falta de ar. Quando voltava a respirar como uma pessoa normal, os mosquitos me atacavam. Quando todos os mosquitos já tinham me picado e minha pobre pele pálida já estava deformava, eu morria de sede e continuava subindo em busca de uma mísera garrafinha d'água. Apesar de tudo, meu humor ainda não estava arruinado, valeu a pena, a cachoeira é linda e yadda yadda. Chegando lá em cima, rumamos à civilização, com as batatas da perna doendo, e arrumamos um hotel baratinho. Muito baratinho. Tão baratinho que eu fui obrigada a dormir no chão, porque a cama afundava no meio. Virava um U. Preferi estender um edredom o chão e arruinar uma noite romântica a dormir naquela cama tosca. Detalhe, eu que escolhi o hotel, "porque era o mais barato e hotéis baratos são legais". Às vezes eu esqueço que minhas costas já não são mais as mesmas.

No dia seguinte, depois de uma noite miserável, fomos passear no Parque da Ferradura, que é lindo, maravilhoso, cheio de bichinhos e árvores e flores e borboletas, mas tem um maldito cânion lindo, e a porra do cânion tem uma droga de uma trilha, e é claro que meu digníssimo resolveu descer, e eu disse que não ia, e ele bateu o pé, e eu bati o pé e falei que não ia, mas ele bateu o pé mais forte e lá fui eu me enfiar no meio do mato, por uma descida praticamente vertical com um toquinhos de madeira encravados no chão pra impedir que você despenque barranco abaixo e morra espetado em uma árvore. Muito engenhoso. Adoro trilhas ecológicas, realmente a-do-ro. Uma hora de reclamação e bufação depois (ele, como sempre, andando triunfante lá na frente), chegamos em um riozinho com uma cachoeira, algo bem parecido com um paraíso, onde nadamos pelados, fizemos coisas censuradas em cima de uma pedra, tiramos fotos, boiamos e eu até esqueci que um dia aquilo ia acabar e eu teria que escalar tudo de volta, com minhas costas em S e minhas batatas da perna empedradas do dia anterior.

ARGGGHHHHH
terror


A subida. Ai, meu deus, a subida. Aquilo foi a pior experiência da minha vida. A pior de todas, pior do que qualquer coração partido, fratura exposta, crise existencial. Mentira. Mas foi terrível. Demorei o dobro do tempo, minhas pernas tremiam, minhas costas envergavam como um pedaço de madeira molhada ao sol, minhas canelas inchavam e os mosquitos, os mesmos mosquitos do outro dia, chamaram reforços e me comeram viva. A qualquer momento, um animal selvagem podia nos atacar. Um sapo-bolha gigante. Um peixe-galinha. Nunca se sabe sobre os perigos da selva. A cada degrau ficava mais difícil de andar. Eu olhava para cima e nunca acabava, nunca, nunca, era muito sofrimento. Cada passo deixava o caminho mais longo. Nunca acabava, nunca, nunca, nunca. Já nem sentia mais as pernas. As havaianas machucavam meus dedos. Escurecia, os animais noturnos batiam as asas e eu já estava tonta de cansaço. O caminho cada vez mais longo. A escada cada vez mais íngreme. Até que eu sentei e chorei. Chorei mesmo, lágrimas, lágrimas, mas não muitas porque àquelas alturas eu já estava desidratada. Fiquei ainda mais lenta, sofrendo cada vez mais até chegar ao topo da montanha, umas duas horas depois, pensando em matar por um banho e um copo d'água.

Voltamos imediatamente para Porto Alegre, onde eu pretendia dormir como um bebê, isso, claro, se eu conseguisse subir as escadas em caracol (CARACOL NÃO!) da casa dos meus pais. Mas não, quem disse que meus desejos seriam atendidos? Nunca. Como tínhamos que ir embora no dia seguinte, minha outra metade resolveu que gravaríamos uma música no estúdio do meu pai, que fica do outro lado da cidade. Eu simplesmente não conseguia andar, mas o Marcelo, mais uma vez, me convenceu a tapa e lá fui eu, um trapo humano, uma grávida moribunda arrastando as chinelas até o carro. Depois de gravar, tive um ataque de tremedeira, febre, suor e pânico. Não consegui andar pelos próximos três dias (tive que ficar em Porto Alegre esperando minhas pernas voltarem ao normal). Vomitava tudo que comia. Febre. Cama. Enfim, a natureza realmente me fez muito bem, as caminhadas ecológicas, o ar puro e tudo mais. Três dias sem caminhar, febre e vômito. Cheguei a achar que tinha sido picada por um inseto tropical letal, mas não. Era frescura mesmo.

O amor realmente move montanhas. Ou te move pelas montanhas, no meu caso. Agora, francamente, eu nunca mais vou a nenhum lugar onde não tenha freezer, escada rolante e luz. Chega de mato. Nunca mais. Nem por amor. Quer dizer, isso até ele me convencer a fazer alguma merda dessas de novo. E ele convence. Sempre convence.

.: Clara Averbuck :. 6:32 PM

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