i gave my life to a simple chord

quarta-feira, dezembro 04, 2002

Senhor, livrai-nos da TFP
[terça]

Tempo, tempo, tempo. Fazer tudo correndo, escrever tudo correndo, ler emails correndo, não responder nada, nunca, porque não tem tempo, tempo, tempo, filho da puta me atropelando, me fazendo correr, me beliscando as canelas como se eu tivesse que chegar em algum lugar, mas eu não tenho, estou aqui, quero ficar aqui sentada, mas ele não deixa, me empurra, corre, corre, corre, eu sou o coelhinho da Alice, me enfiando na toca e caindo no buraco. Quero sair daqui, quero minha casa, meus livros, meus discos e meus gatos, mas demora, demora, demora, tempo filho da puta me fazendo correr na esteira, correndo sem sair do lugar, para chegar em lugar algum a tempo.

Vontade de urrar, rasgar a roupa e gritar até suar, até quebrar tudo, derrubar prédios, vitrines, estourar copos de cristal lá do outro lado da cidade.

50 centavos no bolso - de novo -, bebendo chá para enganar a fome. Ainda bem que a minha fome é fácil de enganar. Já os credores não o são, então não saio de casa. Eles estão na porta, eles estão por todos os lugares, e eu não tenho como pagar, não tenho de onde tirar, preciso esperar, esperar, esperar, não tenho a quem pedir porque dá vergonha. Mendigar é uma coisa, ter alguém ao seu lado resignando-se em pagar porque você não tem é outra muito pior, mais frustrante, mais desgastante, mais dolorida. Recuso-me a depender de alguém e ainda assim dependo e quero morrer por isso, arrancar meu estômago e jogá-lo na privada para que nunca mais me incomode nem peça nada.

A vida é muito mais fácil quando você definha sozinho.

Se eu for dar uma voltinha, vai ter o altar da TFP. Copiei a oração que tem lá, sob olhares indignados de um homem de branco.

"A TFP pede aos passantes uma Ave Maria, para reparar junto, a gloriosa Mãe de Deus a injúria que assim ela sofreu e também para alcançar que ela mantenha o Brasil imune das investidas do comunismo."

=O

I-na-cre-di-tá-vel.

Eles deveriam era rezar por alguém que escrevesse umas precezinhas melhores, vou te contar. Eu não agüento, não posso acreditar que a TFP é uma coisa séria, uma máfia misógina séria, aquelas pessoas de toga tocando trombeta e pedindo a deus que livre o Brasil do comunismo, não pode ser real. Não consigo nem dizer nada de tão patético que soa, de tão sem sentido, tão surreal. Pena que o Monty Phyton não teve a chance de conhecer a TFP. Rapaz, seria hilário.

Então agora eu vou ali comer uma esfiha de 0,45 e guardar os 0,05 no cofre de porquinho. Se alguém quiser me pagar uma janta, juro que não reclamo nem opino nos pratos. Obrigada.

.: Clara Averbuck :. 8:19 PM

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