i gave my life to a simple chord

quarta-feira, dezembro 18, 2002

Meu caro Vernon

Olha, vamos esclarecer umas coisas por aqui. Um mocinho me escreveu cobrando, dizendo que eu escrevia tão bem na época do texto de natal citado abaixo, que eu agora só reclamo, yadda yadda yadda. Bom, em primeiro lugar, eu sempre reclamei, desde o momento em que irrompi do ventre da minha mãe. Não gosta, meu amigo, vai ler um livro, sei lá, vai um Machado de Assis aí? Estou relendo Dom Casmurro e adorando. Acho que você devia, em vez de incomodar os escritores homeless e cheios de problemas como eu.

Escritor precisa de paz. A vida pode ser uma tormenta só, mas na hora de escrever, quero um copo de um lado, um cigarro queimando no cinzeiro do outro e um gato furrando no meu colo. Paz e solidão, duas coisas que definitivamente não tenho no momento. Também seria legal ter uma casa, sabe? Não é exatamente confortável viver mendiga na casa do seu namorado, com um monte de caixas entulhando a sala dele, um monte de livros espalhados pelo quarto dele, um monte de discos girando pelos cantos dele, uma bagunça do caralho em um lugar que não é meu.

Paz, solidão e casa, três coisas que definitivamente não tenho.

Mas um dia eu tive, tive casa, tive até internet, tive um quarto, meus gatos esgueirando-se pelas frestas de sol, minha pimenteira na janela, meus livros em ordem, meus discos alinhados, meus brinquedos na sala, as almofadas no lugar, tudo no lugar, tudo, tudo. Inclusive eu. Uma mesa, uma cadeira, nada de escrever com o notebuck apoiado nos joelhos, nada de ficar deitada na cama com travesseiros nas costas tentando digitar direito, nada disso. Uma mesa, uma cadeira, a coluna ereta, tudo funcionando direitinho. Inclusive eu.

Será que alguém em algum lugar entende a merda que é viver de favor em situação precária, de favor, impotente como um hidrante diante do jato de mijo do cachorro? Irônico, porque eu não tinha nenhum dinheiro naquela época, nenhum, vivia de passar calote nos restaurantes das redondezas. Agora até possuo alguns reais, mas eles não servem para nada se eu não consigo achar um lugar para ir. Então, meu caro leitor que me escreveu cobrando, porque você não me ajuda a encontrar um lugar, uma casa que não precise de fiador? A sua, quem sabe. Talvez você queira ser meu fiador, ou fazer o seguro fiança em seu nome. Ajudaria bastante. Senão, aceito a sua casa, a sua mesa de computador, a sua conexão de internet, o seu modem - o meu está queimado -, a sua mesa de computador, a comida da sua geladeira e o conforto da sua cama macia. Claro que você teria que arrumar outro lugar para morar; lembre-se que preciso de paz, solidão e gatos, e você não é um gato, tampouco é o meu gato, então não adianta. Você não estaria incluído no pacote. Você ficaria sem casa e sem paz, já que eu estaria usando a sua, e talvez assim entendesse mais ou menos a merda em que a minha pessoa se encontra. Mais ou menos porque isso, meu caro leitor, é só a ponta do iceberg. Então, francamente, vá em algum sebo, compre um livro baratinho, achei meu Machado por um real, você também consegue, ache um livro baratinho e não me torre a paciência. Obrigada.

.: Clara Averbuck :. 8:30 PM

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