i gave my life to a simple chord

quarta-feira, dezembro 04, 2002

Em busca do Marreco Sagrado ou Pagando o Pato
Estrelando: Cassiano Fagundes & Clarah Averbuck

Rodamos, rodamos e rodamos, procurando alguma placa que indicasse o caminho. Nada. Rodamos mais. Nada. Tudo com cara de fechado ou fechando, todo mundo com cara de sono. Rodamos mais e mais, entramos em ruelas, acabamos em becos, demos a volta e nada. O jeito era perguntar, o que tentamos evitar ao máximo, considerando que estávamos em Joinville e que a diversão dos catarinenses consiste em emular portugal e fazer piadas ao vivo com pobres turistas como nós.

- Oi, amigo, sabe onde tem Marreco Recheado?

O cara riu bem na nossa cara, despudoradamente, como se tivéssemos perguntado algo absurdo. Ótimo. Continuamos rodando, rodando e rodando. Na vinda, vimos um bilhão de placas anunciando o tal do Marreco Recheado, assim mesmo, cheio de maiúsculas, um Marreco, Mar-re-co, e ainda era Recheado, uau, que delícia devia ser o tal do Marreco Recheado, acompanhamentos inacreditáveis, abundância total, um verdadeiro banquete real para dois esfomeados que pegaram a estrada depois de um dia ruim.

Não, desculpe, não foi um dia ruim.

Um dia ruim é quando você dá uma topada no dedinho e esquece o leite fervendo no fogão. Em um dia como aquele, algum alcoólico anônimo destrói o carro do seu namorado e você perde o lançamento do seu livro depois de passar três horas no trânsito e descobrir, ao chegar no aeroporto, que a sua reserva caiu e que você se fodeu. Para melhorar, estava sem um centavo no bolso, pois os contratantes insistem em achar que "free-lance" significa "lance grátis", esquecendo deliberadamente de pagar infelizes que dependem disso como eu. Sensacional. Mas o Cassiano tinha algum dinheiro, oh sim, ele tinha, e estava disposto a gastá-lo com o Marreco Encantado. O que não era o suficiente, porque não conseguíamos encontrá-lo. Não havia nenhum restaurante aberto, aliás, a cidade é que parecia estar fechada. Nenhuma alma em nenhum lugar, nada, ninguém na rua, uma noite quente de sábado e ninguém na rua, nem uma bicicleta, nem um cachorro vagabundo. Nada. Eu já tinha bebido todo o vinho do lançamento, que estava absolutamente vazio, salvo um maluco que me entregou um calhamaço de poemas ruins escritos para a minha personagem. Certo. Obrigada, moço. Minha diversão na livraria foram os vários dicionários e livros de gramática latina, minha nova obsessão, que me fizeram companhia naquela livraria solitária. Eles e o garçom, que nunca deixava minha taça plástica vazia. Então tudo que eu tinha no meu estômago era um pão de queijo e um galão de vinho ruim, e mesmo assim o Marreco insistia em se esconder.

Decidimos pegar a estrada, onde vimos todas aquelas placas tentadoras nos avisando sobre o Marreco, aquelas malditas placas que mexeram com nossa imaginação carnívora.

Marreco, Marreco, Marreco.

Marreco Recheado, servido em uma travessa fumegante com batatas e florzinhas de tomate. Acompanhado de tudo. Saladas coloridíssimas. Molhos indescritíveis. E arroz, é claro.

Marreco, Marreco, Marreco.

A estrada escura, nenhuma placa, nenhum outro carro além do nosso. Conversávamos sobre outras coisas, todas as outras coisas que existem no planeta terra, mas o Marreco nos atormentava. Ele estava ali, presente, grasnando em nossos ouvidos, a cada intervalo de música, a cada retorno, cada casinha de beira de estrada.

Marreco, Marreco, Marreco.

Estávamos a uma hora em busca do Maldito Marreco. O Marreco Suculento, a carne macia, as cobrinhas de cheiro que não existiam fazendo cócegas em nossos estômagos bêbados. Um molho de mostarda, talvez. Fritas, definitivamente ele viria com fritas, as melhores fritas da cidade. Do país. Do continente. O Marreco e Suas Fritas.

De repente, uma placa. Tinha que ser de restaurante, tinha que ser o Restaurante Marreco de Ouro, com seu Absurdo & Desbundante Marreco Recheado.

Mas não era.

Estávamos indo para Curitiba. No caminho errado, inverso, cada vez mais longe do Marreco. Choramos e procuramos um retorno, cada vez mais determinados a achar o Marreco e com cada vez mais certeza que não acharíamos o Marreco, que ele era mais uma das piadas sem graça daquela gente, que eles retiravam todas as placas à noite para que os turistas esfomeados sonhassem com o Marreco Encantado.

O caminho de volta foi mais longo. Todas as placas que falavam do Marreco estavam apagadas, todos os restaurantes fechados.

Até que houve uma luz.
E era uma placa. E havia uma seta apontando o caminho, e sim, era a Estrada Para O Marreco Imaculado. E o restaurante estava aberto, e sim, havia Marreco, o Indecente Marreco Recheado e Seus Acompanhamentos Pagãos. A busca havia chegado ao fim. Trombetas soaram, anjos cantaram, garotas de biquíni nos abraçaram debaixo de uma chuva de papel picado e balões coloridos. Nós conseguimos.

Pedimos e esperamos.
Esperamos. Esperamos. Esperamos.

E chegou.
E era uma droga.
E não era recheado. O recheio ficava por fora.
E os acompanhamentos tinham todos gosto de chucrute.
E o marreco era pequeno, quase um marrequinho, e era apenas um frango metido a besta, não um Marreco, não um Marreco Recheado Polpudo, apenas um marreco com umas coisas estranhas em volta que eu não comi.

Mais tarde, pedi um xis em um boteco e fui para o hotel dormir o sono dos justos, determinada a nunca mais comer nenhum bicho que eu desenhava na infância.

.: Clara Averbuck :. 8:19 PM

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