i gave my life to a simple chord

segunda-feira, novembro 11, 2002

Fracassos no interurbano
[domingo]

O lançamento em Curitiba? O esperado, planejado, cheio de expectativa lançamento de Curitiba? Aquele com palestras, leituras, Fante, Bukowski, Leminski? O mais foda, o que eu mais queria, o que abriria minha turnê sulista?

Eu não estava lá.
É, eu não estava.

Não quero me alongar, não vou cardosoear e inventar alguma desculpa borgeana e irrefutável. Só vou contar o que aconteceu, mesmo que ninguém precise saber o inferno que foi a minha vida naquele dia. Aquele dia que começou no dia anterior, quando finalmente me mudei - e fiquei devendo dinheiro para o tio do carreto. Me mudei. Consegui. Agora eu moro junto. Então depois de carregar todas aquelas malas e caixas e sofás e suar, arrastar, espremer móveis e virar a santa milagreira do cantinho, corri para discotecar na Fun House, já atrasada e acabada. Bela festa. Toquei um monte de coisa boa e causei comoção em umas duas pessoas. Cansada, morta, com dores nas costas. Seis da manhã, a gente querendo fechar o bar e ir pra casa porque eu tinha um ônibus para pegar às em duas horas - sozinha, diga-se de passagem, porque o professor que ia comigo amarelou, apesar de não ser japonês, e nem se deu o trabalho de me avisar -, quando ouvimou um estouro. Pow. Assustador. Pow. O carro. Ninguém na rua, o carro pacificamente estacionado na frente do bar. Pow. Um bêbado, um peugeot prateado. Um bêbado que vai queimar no inferno. Placa DCG 8205. Um bêbado que fugiu. O carro estacionado, destruído, o vidro quebrado, estilhaços por todos os lados, no banco, no chão. O carro não anda mais. Destruído. O bêbado prateado fugiu, mas um salvador anotou a placa. Filho da puta, fugiu, foi embora, achando que ninguém tinha visto. O carro destruído, sete da manhã, delegacia, boletim de ocorrência, documentos vencidos, o inferno, o inferno. Polícia, oito da manhã, as malas em casa. Longe. O ônibus saindo sem eu dentro. A mudança pesando nas minhas costas, o carro destruído. Tentei outro ônibus, tentei ir até o aeroporto. Trânsito de três horas, 30 reais de táxi, listas de espera cheias, tarifas exorbitantes. Tentei trem, navio, burrico, patinete. Não existia. 4 da tarde, nenhuma hora de sono, nenhuma chance de chegar a tempo. Pow. Tudo arruinado. Disseram que estava cheio, que estava do caralho, que o show foi muito legal. Todo mundo lá. Menos eu.

O lançamento em Curitiba? Discotecagem no James? O Fer e o André, o Tuba e o Giovanni, o Abonico e a Iáskara, o Fábio, o Cassiano, os meus leitores todos? Minhas traduções de um monte de poemas do Bukowski, os contos inéditos do Fante, as poesias do Leminski que eu sei de coração? A festa, o hotel, a bebida, o lançamento na cidade da Besta dos Pinheirais?

Eu não estava lá.

Me perdoem, por favor. O diabo me escolheu essa semana, carreguei seu peso nesses dias, até hoje. Me perdoem, leitores. A expectativa de vocês não era maior do que a minha. Tentei de tudo, movi o mundo para conseguir chegar, mas não deu. Não deu. Me desculpem, deu tudo errado.

Cassiano, eu te devo umas 50.

Me perdoem.

Vou dar um jeito de compensar. Leio o Vida de Gato pra vocês. As melhores partes. O início e o fim. Respondo perguntas, qualquer pergunta. Eu ainda vou aparecer aí e fazer tudo que pretendia, mesmo que sozinha, mesmo tendo que pagar a passagem, dormir na rua, comer grama e que mesmo assim não apareça ninguém porque todos me odeiam agora.

Me perdoem, leitores. Mas merda acontece.
.
.
.
E continua acontecendo. Quando eu disse que não conseguiria chegar em Curitiba a tempo, os outros dois lançamentos foram desmarcados. Acontece que eu já estava a caminho quando descobri isso. Em Registro, para ser mais exata. O Cassiano tentou remarcar às pressas, mas as pessoas de Floripa já nem queriam muito que houvesse o lançamento e recusaram-se a remarcar. Em Joinville não apareceu ninguém, fora o louco que escreve poemas para a Camila e que me deu um calhamaço de papéis. Bebi todo o vinho sozinha, peguei meus emails e descobri um monte de dicionários de latim, que foram meus companheiros naquele momento. Além do Cassiano, claro, que tem meu voto para a canonização. Depois eu conto sobre a busca pelo Marreco Recheado Encantado.

Deu tudo errado. Tudo. TUDO.

Era para ter sido eu e o Flávio, e o Flávio não veio. Aliás, não sei nem se ele ainda está vivo, porque não responde emails, não atende telefonemas e não dá satisfações.
Era para ter sido do caralho, eu teria visto meu melhor amigo que mora em Joinville e que não apareceu e está com problemas sérios no celular. E é puto.
Era para ter sido foda, eu teria visto o Bianchinho e a Jeanne, o Dancer, todo mundo, mas nããão. Em vez disso, estou sentada em um hotel em Joinville. Sem dinheiro para comer, sem dinheiro nenhum até amanhã, quando poderei ir ao banco.

E sabe o que vou fazer?

Fugir com meu babe para o Pântano do Sul e sumir pra sempre por uma semana. Porque puta que pariu, eu mereço, nós merecemos. Vamos apagar o inferno dentro do mar limpinho, comer camarão e pisar na areia e dormir e tocar blues o dia inteiro.

Então até a volta, se é que eu vou voltar um dia.

.: Clara Averbuck :. 12:00 PM

Acesse os arquivos por aqui:

  • wanna find me?
  • miau?
  • me espalhe, sou uma peste
  • eu leio a bust