i gave my life to a simple chord

segunda-feira, outubro 07, 2002

Cupins

Odeio cupins.
Odeio com todo o ódio do meu doce coraçãozinho. Não tenho medo de baratas, não tenho nojo de ratinhos, não tenho problema com nenhum bicho que não me pique ou me babe ou me mate em 24 horas com os rins derretidos. Mas odeio, odeio, odeio cupins com muita força.

Começou quando eu morava em uma rua cheia de árvores velhas, que, por sua vez, eram cheias de cupim. Muitos cupins. Milhares deles, por todos os lados. Todos. Porto Alegre, diferente do que muitos acreditam, é a cidade mais quente em que jamais estive, incluindo o Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro tem vento, sabe, dá pra respirar e tudo. Porto Alegre é úmida e quente e você praticamete nada no ar no verão. Terrível. Então é suicídio sequer cogitar deixar as janelas fechadas. Você sabe, eles só aparecem no verão, nos dias mais quentes. Isso significa que eles entram e ficam se debatendo nas luzes e em você e nas paredes e nas bananas e no que estiver no caminho, antes de perder e espalhar aquelas asas asquerosas por todo o ambiente. E como está calor, você fica com aquela impressão que as asas deles vão grudar para sempre nas suas costas. Meu deus, como eu odeio. Como dá nojo. Eu fico neurótica, achando que qualquer coisa que encosta em mim é um deles. E fico fazendo faxina depois que eles morrem, simplesmente não posso com a visão daquelas asas brilhando no chão, na cama, no sofá. Arrrrrrghhhhh.

Dia desses estava chegando em casa, no fim da tarde, e vejo uma cena linda: era uma nuvem de cupins saindo de uma árvore arruinada, a nuvem brilhando no restinho de sol, tão lindo e tão desesperador, porque eu sabia que eles estavam prestes a invadir minha casinha tão limpinha, então desatei a correr, peguei o elevador, abri a porta derrubando tudo toda estabanada e fechei a janela. Olhei em volta, nenhum sinal deles. Haha! Eu tinha vencido. Fiquei esperando na janela até eles aparecerem, tentando entrar e dando de cara no vidro, malditos animais estúpidos e feios. Eu venci. Mas só naquele dia. Porque agora eles estão todos aqui, TODOS, todinhos, todos os cupins do mundo inteiro voando pela MTV afora, olho para as outras salas e eles voam e voam em volta das lâmpadas e ninguém dá bola, e é claro que eles ficam dando rasantes na minha cara, no meu cabelo, em tudo, andando na minha nuca enquanto eu tenho chiliques. Acho que vou cometer um inseticídio, comprar um spray e usar de lança-chamas. Se bem que pode pegar mal no meu primeiro dia. Sei lá. Acho que vou simplesmente me trancar no banheiro e chorar até que eles percam as asas. Isto é, se lá também não estiver cheio deles. Leve-me, Senhor.

.: Clara Averbuck :. 7:26 PM

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