i gave my life to a simple chord

quarta-feira, setembro 04, 2002

Hoje eu vi amanhecer

Dois dias. Fiquei dois dias em Porto Alegre e a coisa que mais fiz foi dormir. Meus pais agora moram no Sétimo Céu, em sua nova e primeira casa própria, no alto do Morro do Osso e no meio do mato. 24 anos vivendo de aluguel e agora eles têm uma casa azul com a vista mais linda de toda a face de Porto Alegre. A vontade é de me internar aqui e terminar o Vida de Gato, ficar aqui dentro desta casa que meu pai construiu para sempre.

E eu tenho que ir embora.

Vou porque quero, mas queria ficar também, porque sou duas, nunca esqueça disso. Acho que a Camila queria ir e eu queria ficar. Tanto faz. Agora são 7'42AM e preciso começar a pensar em arrumar minha mala. Ontem minha mãe tentou comprar roupas comigo, queria me dar uma bota nova, coisa que meu pai também já tinha tentado sem sucesso. Até o Mirisola (meu amigo, escritor, leiam imediatamente O azul do filho morto) já disse que vai me dar uma bota nova, mas eu não quero, estou feliz com minha bota velha. Minha mãe tentou também me dar uma calça. Eu não quero. Gosto da minha calça azul. Ela só teve sucesso na parte de underwear, renovando minha gaveta de calcinhas furadas, e repondo minha jaqueta de couro (falso) já que consegui perder a minha um dia desses.

Consegui também chegar tarde ao meu próprio lançamento, porque ontem entrou água no meu relógio à prova d'água e agora ele fica atrasando, o que me fodeu. Uma hora de atraso, metade das pessoas já tinha desistido, até porque eu estava concorrendo com o Lula. Tinha comício, sabe. Mas tudo bem, meus amigos estavam lá, alguns leitores também. Minha família estava lá. Minha avó comprou meu livro, meda, pânica, horrora, desespera.

Não quero ir embora.
Quero ir embora.
Tenho que ir.
Mas eu volto.

Não sei quando, não sei como. Mas volto. Porque essa vista é a mais linda do mundo, porque eu vi amanhecer e chorei, porque o Pedro Ivo (meu Joo que ficou em Porto Alegre) não saiu de perto nem por um segundo, nem enquanto eu dormia, e agora me olha com cara de quem sabe que vou embora. Porque preciso gravar Peel me a grape e Christmas card from a hooker in Minneapolis com meu pai e as músicas que eu e a Desi fizemos no começo do ano e O Ébrio com guitarras e distorção. Porque aqui tem oxigênio e solzinho e frio. Porque aqui é a minha casa. Porque eu sou uma típica gaúcha, sempre meio bagual, meio macho, tirando a faca da bota se me incomodam. Porque eu morro de solidão naquela cidade sem horizonte, sem descanso para os olhos, sem Rio Guaíba, sem mãe nem pai, sem Mari nem Mojo. Aquele lugar onde não tenho nem onde morar, não tenho dinheiro para comprar cigarros, ninguém para acordar ao meu lado sempre que quiser.

Ainda bem que solidão não mata.

Preciso ir, preciso voltar para aquela cidade feia que agora é minha casa e que me chama, me puxa de volta, porque preciso resolver coisas, convencer pessoas, tentar fazer a feira.

Não quero ir embora.
Tenho que ir. Eu vou.

Como se faz pra não chorar numa hora dessas?
Eu não quero saber.

.: Clara Averbuck :. 8:56 AM

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  • wanna find me?
  • miau?
  • me espalhe, sou uma peste
  • eu leio a bust