i gave my life to a simple chord

domingo, agosto 04, 2002

Mais Vida de Gato

- Camila!
- Olá, Arturo. Vi a luz acesa e resolvi entrar.
- Você está bem?

Olheiras. Cabelos desgrenhados, noites sem dormir, morrendo por ele.
Mas Arturo era homem e eles nunca reparam nessas coisas.

- Estou ótima, querido. E você?

Ele riu. Riso de quem não estava bem, de quem estava podre por dentro.

- Eu... Eu estou bêbado.

Oh, que surpresa.
Arturo, meu amor. O desperdício mais maravilhoso do mundo
inteiro. Murcho e bêbado em sua cidadezinha ridícula, naquele bar ridículo. Meu peito endureceu. Não tínhamos nada para conversar, mas eu queria tanto falar. Queria falar, chorar, sacudi-lo para tentar achar algo que não estava mais lá. Amor escarrado, descartado, jogado no lixo junto com os restos da noite passada. Vazio. Nenhuma vontade de chorar e ao mesmo tempo, vontade de ter vontade de chorar muito para descongelar. Eu estava petrificada.

- E eu preciso ficar.
- Ficar?
- Bêbada.
- Ah.
- Achou que era ficar aqui?
- É que tem uma festa.
- Não sabia.
- Achei que tinha vindo para isso.
- Vim para te ver.
- Mas você vai ficar?
- Bêbada?
- Não, aqui.
- Você quer que eu fique?
- Não tenho nada para te oferecer.

Tiro, facada, soco, chute. Choque, porrada, veneno. Puta que pariu, quero morrer agora, sumir, entrar em uma frestinha do chão e morar debaixo do taco para sempre, no meio do pó. Mas ninguém precisa saber.

- Não espero nada de você.
- Então fica.
- Vou ficar.

Que mentira, que mentira enorme, a maior mentira que já contei na minha vida. Não espero nada de você, apenas que você me ame, que não suma, que não fuja depois de dizer que já volta. Que você tenha um mínimo de dignidade para me mandar embora antes de trancar a porta por fora e me deixar esperando dentro de casa, esperando você voltar. Esperando. Esperando. Esperando até entender que você foi covarde. Fugiu.

Um bilhão de pessoas gritando na minha cabeça em alguma língua que eu não conhecia. Chinês, acho. Tonta, confusa, sem querer acreditar onde tinha me metido. Estava em um lugar onde não era querida. Não deveria estar ali. Eu estava morta. Arturo me matou e enterrou meus restos achando que nunca seriam encontrados. Mas eu não desapareço. Não sou nenhuma garotinha dessas sem rosto que podem ser substituídas como pilhas quando ficam fracas. Eu sou inesgotável. E precisava de um uísque.

Virei um copo de Natu Nobilis sem gelo. Que merda de uísque. Pedi outra, dupla. Que merda de uísque! Os chineses foram se calando aos poucos na minha cabeça. Respirei. Acendi um Lucky. O barman me olhava. Mais uma dose, por favor.

.: Clara Averbuck :. 9:12 PM

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