i gave my life to a simple chord

domingo, agosto 04, 2002

Era uma vez um dia.

Um dia em que eu apontei uma arma sem saber. O dia em que me apontaram uma arma de volta e eu larguei a minha, joguei para trás e levantei os braços e me entreguei. Nunca me entreguei desse jeito. Tinha entregue meu corpo, minha alma, minha cabeça, mas nunca o controle da minha vida. E nesse dia, entreguei tudo nas mãos dele. Vai, querido, dirige, nos leva para onde quiser, nos leva para o céu ou para o inferno ou para o abismo, eu confio em você. Vem, querido, me beija, abre os braços para mim, se entrega como eu me entreguei, estamos sozinhos, só nós, ninguém mais, em lugar algum.

Mas ele não se entregou. Ele enfiou o pé no acelerador e saltou quando chegamos à beira do penhasco. Ele acorvadou-se e não pulou comigo. O carro voou e eu fiquei lá, esmagada entre as pedras e ferragens, toda torta, sangrando e sozinha. Ele foi embora sem olhar para trás, sem culpa e sem memória. E eu nunca mais fui a mesma.

Consegui sair, me arrastei até a estrada mais próxima e gritei por ajuda. Ainda estou internada, não posso sair e correr como antes. Não posso mais rir, beber, rodopiar e cair; fiquei frágil. Antes eu não quebrava, nada me derrubava. Agora não posso mais me arriscar. Não posso cair, não posso me atirar. Mal consigo segurar minhas próprias pernas, que antes eram tão fortes, tão invencíveis, e agora tornaram-se bambas, suporte de alguém fraco e débil. Eu.

Olho no espelho e não me reconheço. Não sei em que ponto esqueci de mim mesma e me perdi, não sei quando evaporei, mas agora sei que isso não poderia ter acontecido. Deixei tudo ir longe demais, achando que era o certo, que era fundo, que era digno. Não era. Me perdi. Me perdi de mim e não sei para onde voltar, não sei mais onde estou, não conheço o caminho de volta. Uma amneásica esperando por resgate, querendo reconhecer alguma coisa e voltar para casa. Não tenho casa, a minha desmoronou, incendiou, não sobrou nada. Nem penso em construir outra fortaleza. Fortalezas só nos protegem dos fracos. Os fortes acabam entrando pela porta da frente, com a cabeça erguida, com nosso consentimento.

Não sei para onde ir. Não sei se quero ir a algum lugar. Nada me excita, nada me faz suspirar ou sorrir. A felicidade foi atropelada por um caminhão enquanto tentava atravessar a rua. Nada me move. Nada acontece. Nada. Nada. Nada.

Nada.

Sobrou uma foto. Só uma imagem do dia em que descobri que não havia nada, o dia em que quebrei em um bilhão de caquinhos que se perderam na grama, no asfalto, no céu e no nada. Uma foto nossa, nós dois olhando por cima de nossos ombros. Você sorri. Eu apenas olho. Dá pra ver o pedido de socorro estampado em meus olhos. Eu sabia o que me esperava. Sabia que caminhava numa prancha em direção aos tubarões em alto mar. Sabia. Mesmo assim, continuei em frente, sempre em frente. Um dia eu fui assim. Eu ia em frente, sabia onde ir e o que fazer. E fiz tudo certo. Eu fiz tudo certo. Não tenho nenhuma culpa, nenhuma dúvida, nenhum arrependimento. Estou limpa. E sei que você está imundo. Mas o que você é para mim não chega nem perto do que você quer ser para o mundo. Meu querido, meu querido, meu único amor, eu sei o que você é. Eu sou a única pessoa neste mundo que realmente sabe o que você é. Nem você sabe. E é por isso que continuo sofrendo, por isso que não desisto, por isso que não viro as costas para você. Tudo que eu queria era que você também soubesse. O dia em que você souber, eu ressucito. Por enquanto, definho. Morro. Desboto. Amanheço a cada dia mais fraca, cada dia menor, cada dia com menos brilho, menos vida, menos força, assistindo à minha essência escorrendo das feridas. Morrendo pelo que você se recusa a ser. Esquecendo minha própria vida, ignorando tudo que eu sempre quis, tudo que me fez viver até te conhecer e que se materializa na minha frente. Matando minha vida porque você não vive a sua. Se ao menos eu soubesse me enganar como você. Mas não. Eu sou de verdade. E essa vai ser minha sentença de morte. A verdade mata. Pára de mentir.

.: Clara Averbuck :. 8:52 PM

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