i gave my life to a simple chord

sexta-feira, agosto 23, 2002

Double John Fantasy

Não, ninguém entenderia a doçura desta noite. Ninguém mais entenderia, ninguém além de Clarah Averbuck e Camila Chirivino. Duas em uma, primeiro decanato, nós duas, que tanto falamos sozinhas, que tanto brigamos, hoje nos abraçamos porque só nós entenderemos a doçura desta noite. Não estamos sozinhas, não, não mesmo. Estamos com John Fante e Arturo Bandini, enquanto Miles Davis, Chuck Findley e Michael Legrand fazem a trilha desta noite em minha casa, nesta São Paulo que não quero minha, diante desta janela que deixa entrar todas as luzes da terra e do céu. O chiado da minha caixa de som estragada não me incomoda. Nem me incomodam os 40 centavos em moedas de 5 que me sobraram na carteira nem a dor nas costas, nem os olhos secos, nem a água da torneira, porque nada tira a doçura desta noite. Não estou sozinha, não, de maneira alguma, Camila Chirivino, minha amiga, grande garota essa Camila, como ela é durona, vocês não acreditariam. Ela passa por tudo, fome frio sede sono, vai e mete a cara, mete também os pés pelas mãos às vezes, mas quem não mete? Vai, Camila, ganha o mundo por mim, grande Camila, escritora talentosa, grande mulher, nada além disso. Não importa como Camila se parece, não importa a cor de seus cabelos ou de sua pele ou de seus olhos, Camila é escritora, escritores vivem nas letras, não nos holofotes. Vai, Camila, vai até a janela e olha essa cidade, porque ela quer ser tua. Não a quero para mim, não posso, mas você, ah, você está pronta para ganhar o mundo, o mundo já é seu, sempre esteve de pernas abertas. Clarah Averbuck e Camila Chirivino. Nossa história se confunde, verdade e ficção, minha ficção, verdade de Camila, nossa família, nossas raízes que não estão nesta cidade, estão longe, nosso centro não é aqui, por isso nós duas enloquecemos às vezes, arrancamos nossos cabelos, eu e Camila, porque este não é o nosso lugar. Mas hoje não, hoje estamos em paz, nossos dedos no teclado, nossos olhos no livro, nossa história repetida pelo cara que a batizou, Camila, doce Camila, vai, vai iluminar a vida dos outros como iluminou a minha, se atira no mundo, faz tudo o que o nosso Arturo não fez, todos os delírios, todas as escadas e os sonhos e as putas e os hotéis baratos em uma cidade sem raízes, mostra ao mundo como se faz, porque eles não sabem nada, pobres homens, humanidade perdida no asfalto e no cimento. Não dê ouvidos a ninguém, vai em frente, fecha os olhos e pula, corre, vai, Camila, porque o mundo te quer.

* Enquanto traduzia o prólogo e me impregnava com o mais puro Fante e o mais doce delírio de escritor de 20 anos.

.: Clara Averbuck :. 4:21 AM

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