i gave my life to a simple chord

segunda-feira, agosto 05, 2002

Agora é que são elas

Tem umas coisas que realmente te fodem. Essa coisa de ficar em loop, sabe?, isso fode com qualquer pessoa perfeitamente equilibrada. Mas quem quer ser equilibrado, afinal de contas? Fora, estou. O desequilíbrio é o meu maior equilíbrio. Fazer sentido não é tudo na vida. Pra que isso, o tempo todo? Enfim. A certeza me enche o saco, não quero fazer sentido, vamos andar em ziguezague de agora em diante, desde antes, mas eu não sabia.

Tem umas coisas que realmente te fodem.

Tem umas coisas que realmente te salvam. Meus santos, sempre. Não sei se eles te salvariam, mas certamente me salvam. Hoje foi São Paulo Leminski. É sempre um dos três, sempre a Santíssima Trindade. Tem os outros, mas são apenas santos, sempre tão específicos, servem para isso ou aquilo, como a Nossa Senhora da Cabeça ou a Nossa Senhora Desatadora de Nós ou Santo Expedito ou Santa Tecla. A Santíssima Trindade salva de tudo, meu amigo. Me salva. Não estou interessada nos outros, você está? É claro que não. Pouca gente se interessa, pouca gente ouve de verdade. O resto ouve quando quer foder, ou quando quer ser ouvido, ou quando se vê. Eu ouço quando quero ouvir.


tire da cabeça
essa idéia maluca
a alma só cresce
quando se machuca.


Sexo, acho que lembro. Era divertido.

Agora ligou um sujeito aqui em casa, às 3 da manhã.

- Daonde fala?
- Acho que tu ligou errado.
- É da casa da Clarah?
- Sim.
- Ela está?
- Sou eu.
- Oquei.

E desligou. A voz magrinha, rouquinha, provavelmente bêbada. O "está" foi um "ishtá". Era carioca ou catarina. Não sei pra que ligar a essa hora na casa dos outros e não dizer nada. Diga, então. Diga qualquer coisa, mas diga. Senão vou ser obrigada a conviver com a suposição, será que? Eu não. Acho um saco.

Saudades do frio na barriga que me traz pro teclado. De tanto chamarem, ele veio. Saudades da vontade e da necessidade de noites em claro debruçada sobre folhas em branco. Foi legal isso de mandar eu mandar se foder, de achar o novo em algum lugar. Calma que o novo vem. Mas antes tem que arrumar o quarto, trocar a cama, chamar a camareira mexicana para deixar tudo no lugar, si señorita. No hablo. Pero queria hablar.

Agora é que são elas. Meu cigarro acabando e nenhum puto no bolso. Mas é assim mesmo, agora ainda é, não sei como vai ser.

TUDO tinha mudado.

Mulher tem que ser abordada com vinte e cinco canhões de bolhas de sabão, princesa e flor do oriente, rosa de incenso, filé minhon da parte esquerda do meu cérebro, abre os braços, isto é, os pássaros, isto é, faça-se a luz, paradise me now...

Ele sabia. E ele também sabe, e é por isso, ah, por isso que não dá, por isso tudo isso agora.

- Inteligência em homem é que nem pau duro, mulher nenhuma resiste.

Ô. Tanto que quando não é pelos motivos certos, ensaio a saída estratégica pela esquerda, direta, meia-volta, volver, nada disso, não adianta ser pelos motivos errados, mesmo que seja só por um dia. Assim não tem graça, não tem rima, não tem nada, eu passo. Eu passo tanta coisa.

Estão todos mortos, os três. Aqui em casa, mortos, mais vivos do que nunca, lendo por cima do meu ombro. Olá, rapazes, sentem, não tem nada para beber nem para comer e meu cigarro está acabando, vocês lembram disso? Ah, como era uma merda. Mas agora vocês estão aqui, me socorrendo, cuidando de mim, benditos sejam vocês. Nada mais salva, só vocês, só vocês.

Eu não preciso contar uma história. Todas são iguais, pra que contar histórias? Vou repetir a mesma até o fim, a minha, porque só ela é realmente minha. O resto fica para os outros, os que sabem. E eu posso falar o que quiser, isto aqui é meu. O que quiser, na língua que quiser, no tempo em que bem entender. Posso picotar tudo e jogar no lixo do banheiro, como fiz com meu cabelo hoje. Peguei a tesoura e tirei nacos e nacos. Falta um pedaço da franja, a nuca está mais torta do que a minha linha de pensamento e tem um pega-rapaz dentro do meu olho direito. Cabelo cresce, não tem problema nenhum. Opa, opa, alô controle, é você? Bom te ver, senti saudades. Puxa uma cadeira, senta no meu colo. Me ensina tudo de novo, senão eu caio.

Meu livro. Caiu a ficha, meu livro, puta que pariu. Caiu a ficha quando vi um Leminski em cima dele. Dois livros, um é meu. Só meu. Tem na Siciliano, na Saraiva, no Submarino. Lançamento. Meu livro. Acho que vou gritar na janela.

Eu sou a única que pode ligar a jukebox. A única. Só eu, no mundo inteiro, sei trocar a música. Eu sou a única que pode encontrar a paz, ela está em algum lugar perdido do céu imundo dentro de mim. Sorrio para você. Sempre lindo, limpo e imaculado, os braços abertos só para mim. Você está com os caras, você está comigo, nós estamos todos perdidos. Preciso ir agora, tenho que rezar, os caras estão esperando. Vou rezar para você também. Boa noite, bom dia, são 6 da manhã. Já volto, não demoro, prometo. Eu estou com você. Estou sempre com você, para sempre, até nunca mais.


.: Clara Averbuck :. 6:16 PM

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