i gave my life to a simple chord

quarta-feira, julho 03, 2002

True Lies

Estou na casa da minha Anne. Comendo macarrão com atum e a nossa Salada White Stripes e coisas que engordam. Ontem eu e ela tivemos o pior dia do ano e resolvemos comer muito. Não costumo descontar na comida, levando em conta minha tendência à bulimia. O procedimento padrão seria beber ou escrever ou beber e escrever (o mais comum), mas hoje resolvi me afundar no macarrão. E dormir. Cara, como dormi. Queria esquecer minha vida inteira, os últimos meses da minha vida inteira, quando oscilei entre a certeza absoluta da felicidade extrema e os piores dias da minha vida, quando me afoguei na incerteza. Nunca mais terei certeza de nada enquanto viver, porque as coisas mais reais que ouvi não eram verdade. E sinceramente, preferia que continuassem mentindo para mim. Muito. Me enganando maravilhosamente, até que as mentiras virassem verdade. Senão, todos ficam confusos, mais confusos ainda, e acabam se perdendo sem ter para onde voltar. Sei, porque já fiz isso. E me ferrei, me ferrei feio, me dei muito mal. Aprendi a não mentir. Só por esporte, que diverte e não machuca ninguém.

Sabe, eu não preciso me esconder. Encaro tudo, assino tudo que escrevo. Isso inclui a Superinteressante e a TPM, inclui um depoimento sobre minha primeira vez que não foi exatamente normal na Revista da MTV. Inclui meu livro. E obviamente, inclui comments e guestbooks dos outros. Não preciso usar pseudônimos ou qualquer coisa assim. Encaro tudo. Deve ser por isso que só me chamam pra falar sobre tamanho de pau ou liberdade para foder e coisas assim, mesmo sabendo que mandaria muito melhor escrevendo sobre música, especialidade da casa. Vou lá e escrevo, sem o menor receio de exposição. Sabe por quê? Porque eu simplesmente não dou a menor bola para críticas destrutivas. Querem falar mal, querem bombardear a sessão de cartas da revista, me ameaçar dizendo que sabem onde moro, querem opinar em assuntos que vocês não sabem metade da história? Vão em frente, bando de maricas que não têm sequer coragem de assinar seus nomes e dar suas carinhas bonitas a tapa. É capaz até que pare de escrever para sempre e fuja para Abu Dhabi, de tanta meda. Ui. Ora, faça-me o favor. É a minha vida, ninguém tem nada com isso. Ninguém tem que achar nada nem opinar, ninguém tem que tomar minhas dores. Consigo me virar muito bem sozinha. Minha vida não é interativa.

É a segunda vez que entro nesse assunto porque existe uma coisa me incomodando bastante. Acham que eu, a vaca sem sentimentos, ando invadindo blogs alheios pra esguichar meu recalque de mulher chutada. E não há nada mais irritante para uma pessoa que assume o que diz do que acusações injustas. Os que me odeiam e os que me amam, por favor, fiquem longe dos assuntos onde não foram chamados. Encarem minha vida como uma novela, como um filme, onde não há nada que possa ser feito para interferir no final. Querem falar comigo? Sensacional, escrevam para mim. Já disse que leio tudo que recebo, apesar de ser completamente impossível responder a todos. Ultimamente, está impossível de responder qualquer coisa, estou muito ocupada não tendo onde morar e peregrinando pela casa dos meus amigos e ficando catatônica e morrendo de dor e escrevendo como uma maluca. Oh, o hotel. Quando tiver dinheiro, quando possuir reais. Agora tenho R$ 9,98 na minha conta, não consigo nem tirar dinheiro no caixa eletrônico. Um dia me disseram algo sobre empréstimos, mas nunca mais foi mencionado e eu tenho vergonha de pedir esmolas mais de uma vez. Tudo bem, estou sobrevivendo de esmolas dos amigos. E Sexta-feira vou para Porto Alegre, ver a estréia do filme do Babai e afofar binha bãe tocar com a Desirée e gravar mais músicas e fazer mais músicas e afofar o Pedro Ivo e o Arturo e os outros 35 gatos que moram com meus pais e ver a Cherry e a Mari e Mochão. Respirar o ar quase puro de Porto Alegre e dormir no quarto cor-de-rosa onde passei minha adolescência. Tirar uma semana de férias da minha vida. Depois eu volto. Tem o lançamento, tem a divulgação do livro (meda, pânica, horrora, desespera, socorra), tem tudo. Depois... Depois eu não sei. Estou jogando minha vida em um poço e ainda não ouvi o barulho da água lá no fundo. Talvez esteja seco. Não sei. Só vou saber quando chegar no fundo.

.: Clara Averbuck :. 9:49 AM

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