i gave my life to a simple chord

sexta-feira, julho 05, 2002

Poeira, lentes vencidas e a Terrível Anciã Caolha

Podem parar com a choradeira. Voltei. Credo, não posso ficar um dia sem postar que vocês mandam duzentos emails. Calmaí, gente boa. Podem ter certeza que não foi por vontade própria. Quando posso, passo o dia inteiro escrevendo.

Estou desde terça aqui no Svensson Internet Café (SIC), mas minhas coisas continuavam lá em casa. Eu achava que estava quase tudo empacotado, mas depois de passar o dia inteiro chafurdando na poeira, tendo uma crise de rinite e espirrando, revirando gavetas, desmontando estantes e dobrando lençóis, concluí que faltava muito para "quase tudo". A porra do dia inteiro respirando poeira e ouvindo uma única banda no repeat. Quase enlouqueci. Pensei bastante. Pensei demais. Cheguei a um milhão e meio de conclusões, todas inúteis. Continuo na mesma. Meu método de empacotamento também não é dos mais sábios. Espalho tudo, tudo pelo chão e vou separando. Parece que caiu uma bomba no local e que os escombros estão deitados ali, sem nenhuma chance de voltarem nunca mais para o lugar. Horrível. Fiquei tonta, o dia inteiro tonta, a noite inteira tonta.

Vamos do começo. Tinha uma entrevista marcada com meu amigo Paulo Terron, do IG, às quatro da tarde. Achei que seria legal ser entrevistada enquanto terminava de embalar minha casa, então combinamos que ele passaria aqui e me daria uma carona, porque eu não tinha dinheiro nem pro metrô. A Anne foi junto, porque sim. Tudo certo, fomos conversando no táxi e fazendo piadinhas sobre despejo e minhas coisas do lado de fora da porta. Chegamos rapidinho.

A porta da rua estava aberta.
A janela estava aberta.
A luz estava acesa.

Senti uma pontada no fígado, mas fiquei calma. Muito calma. Não, não estava muito calma. Mas eu não corro. Subimos a escada. A porta do apartamento de baixo - só tem dois apartamentos no prédio - estava escancarada. Suspirei, aliviada. Só que quando subi a escada, dei de cara com três velhinhas na minha porta. Levantei todas as sobrancelhas e fiquei esperando alguma explicação. Ao que tudo indicava, elas estavam prestes a entrar na minha casa. Está certo, não pago o aluguel desde antes da Guerra Fria, mas isso não é motivo para ter minha casa invadida por uma velhinha e suas amigas. Oquei, uma delas não era amiga, era a senhora da imobiliária. Ela que falou comigo, meio tentando se explicar.

- Clarah! Estávamos preocupadas.
- ... !
- A Dona Antônia disse que a janela estava aberta há três dias e não tinha movimento nenhum na casa, então resolvemos checar.
- Não estou mais ficando aqui. Só vim buscar minhas coisas - eu disse, enquanto abria a porta para o Paulo e a Anne.

Não sei se cheguei a mencionar que a Dona Antônia é caolha e assustadora e deve ter uns 160 anos, mais ou menos. Ela me encarava sem dizer nada, só com aquele olho vidrado em mim.

- Dá pra entrar aí? - disse ela, apontando com o queixo.

Meda, pânica, horrora, desespera, socorra.

- Claro, tenha a bondade.

E entraram, todas elas. Dona Antônia começou a falar algo sobre oficial de justiça, advogado, polícia, arrombamento, sem fazer sentido algum. Meu pai, pobre homem, é o fiador, e já tinha negociado com o advogado da velhinha. Mas ele, aparentemente, é um grande filho da puta e disse para ela que meu pai e eu estávamos fugindo. Certo. Fugindo. Meu pai esperou dois meses pela ligação do maldito. Talvez ele seja débil mental e não saiba fazer ligações interurbanas, mas algo me diz que ele é simplesmente um grande filho da puta. Não perdi tempo tentando explicar para Dona Antônia, apenas disse que ninguém estava fugindo e que entregaria a chave no dia seguinte (hoje, diga-se de passagem).

- E você já tem para onde ir? - preocupou-se ela.
- Tenho, tenho. (pff)
- É Lúcia, né?
- Clarah.
- Lúcia sou eu - disse a outra velhinha, que ainda não tinha se manifestado.
- Ah, isso.
- Bonitona ela, né? - Dona Lúcia me olhava e sorria. Socorro.
- É, bonitona, sim. Ah meu deus. A parede. Vamos embora, vamos, vamos.

Ela se referia ao "Róóóque" pichado na parede da sala. Pensei em me oferecer para pintar e aliviar a minha dívida, mas achei melhor não estender a conversa. Lembrem-se todos que havia testemunhas da imprensa no local que não me deixarão mentir. Foi surreal assim mesmo, como tudo na minha vida estranha.

Foram embora, as velhinhas e a senhora da imobiliária. Dona Lúcia sorria muito. Dona Antônia balançava a cabeça, tomada pelo desgosto. E a senhora da imobiliária tentava deixar claro que não era nada pessoal, que só estava fazendo seu trabalho, yadda yadda. Ora, se alguém tinha que se desculpar ali, era eu. Pobre Dona Antônia. Eu deveria ter saído daquele lugar há séculos, mas estou enrolando. Foi necessário.

A entrevista foi fera. Paulo é meu amigo faz tempo, conhece bem o que eu faço, acho que a matéria vai ficar bem legal. Tem tudo para ser antológica. Quer dizer, quantas vezes você chega na casa de um entrevistado e tem uma velhinha caolha invadindo o apartamento?

Depois, fomos ao meu bar. Tomei umas cervejas e voltei para casa, a fim de arrumar tudo. Só consegui bagunçar. Bagunçar muito. Acabei dormindo sem roupa, com a janela aberta, e pegando uma puta gripe. Estou completamente rouca e com tosse. Só porque pretendia tocar com a Desi. É sempre assim. Mas vou me curar, até porque tenho quase certeza que perderei a estréia do filme do Babai amanhã. Não consegui remover meus pertences do apartamento da Dona Antônia e preciso mudar para minha nova casa urgentemente.

...

Nova casa?

Sim, nova casa.
Uma pessoa que quer muito ir para o céu me ofereceu sua casa vazia. Ele vai ter que trabalhar por alguns meses em outro lugar e precisa de um caseiro para cuidar de tudo.
Uma casa.
Um apartamento, na verdade.
Alto, longe de ônibus e de vendedores de abacaxi.
Inacreditável.
Ele tinha oferecido antes, mas não estava certa se devia aceitar. Era estranho. Ainda nem conheço o rapaz, mas tenho certeza que ele é uma ótima pessoa. Ninguém faz isso sem ser uma ótima pessoa.
Poderei levar meus gatos, meus quadros, meus brinquedos.
Poderei levar tudo. Tudinho.
Hotel?
Só quando ele me expulsar de lá.
Já tinha até me acostumado com a idéia do hotel. Não estava exatamente feliz, mas já tinha me acostumado. Martelei por dois meses na minha cabeça. Morar em um hotel. Morar em um hotel. Morar em um hotel. Já estava quase me conformando. Oh, bem. Fica para a próxima, porque eu vou continuar pobre por muito tempo ainda e não posso negar um convite para morar degrátes.

Eu tenho uma sorte do caralho, pra compensar meu azar.

Preciso dormir, amanhã preciso dar um jeito de buscar a chave da casa em Campinas (...) e fazer a mudança. E preciso muito de lentes novas. As minhas estão vencidas há semanas. Não enxergo mais nada e meus olhos ardem. Não sei o que é pior, ficar cega - sou cega, completamente cega, e não faço a menor idéia de onde possam estar meus óculos - ou ficar com essas duas moedas de um centavo parecendo areia nos meus olhos.

Mas eu tenho uma casa.

A vida é um jogo, né? Que clichezão. Devo ter mesmo sorte no jogo e azar no amor.

Não sei como, mas tudo sempre acaba bem.

E viveram felizes para sempre, ela, os três gatos e Samuel, o fantasminha.

... Até o próximo despejo.

.: Clara Averbuck :. 5:17 AM

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