i gave my life to a simple chord

quarta-feira, julho 24, 2002

A margem e o fundo

Não quero mais brincar de ficar sem internet. Devolvam a Barbie, minha bola e meu ursinho e instalem o Speedy.

Nunca apaguei tantas linhas como nos últimos dias.

E São Paulo tem tentando se mostrar bonita. Todos os dias, vejo algum céu inexplicável pela janela da minha torre, sempre de alguma cor que não é de céu. Deve ser a poluição, mas prefiro pensar que a cidade tenta mostrar que ainda consegue ser bonita.

Mesmo assim, queria estar no Rio. Queria andar no Rio, sentar em algum bar e ouvir alguma história desconhecida e definitiva, como a do homem da rodoviária que me falou sobre a vida. Eu já sabia, mas tinha esquecido. Mentira, nem tinha. Estava lá, deixei ela me levar, e meu coração já tinha começado a apertar com a demora.

Meu pai me disse para que eu não me apaixonasse, lá longe, lá no começo. Pai, deixa eu te explicar. Se apaixonar é como tropeçar. Não existe nenhum controle sobre isso. Quer dizer, existe, mas escolhi não tê-lo, mesmo sabendo que a cara acaba rachada no final. Refrear a paixão seria como cortar o fluxo da vida, e a arte, a minha arte, é feita de fluxo, paixão e dor. Toda a arte é. Dor, desespero, angústia, loucura, indignação, raiva, mágoa, revolta, turbilhões, esses são os combustíveis da arte. Ter dons é uma maldição e uma benção, porque não se pode fugir.

A correnteza está sempre a meu favor, mesmo quando engulo água.

Sei que estou indo para o lugar certo. Não sei qual é, não sei qual será o fim, mas me deixo levar à miséria ou à glória, porque é isso que tenho que fazer. E estar ao lado dele me fez criar as melhores coisas da minha vida, então valeu. Como disse o Wilde para seu amantezinho de merda, "meia hora em contato com a arte sempre significou muito mais para mim do que um longo período passado ao seu lado." Acontece que ele me causou o que eu precisava, ainda me causa, quando menos espero. Aos poucos desbota, logo a folha estará apagada de novo e alguém poderá chegar e escrever por cima, mas o que aconteceu me deixou marcada. Para sempre, serei marcada. Ficou um vazio no meu coração e ele vai me acompanhar até o dia em que eu morrer. Qualquer um que chegar perto, que tentar beber da minha alma, saberá sobre o vazio. Estou impregnada com o gosto amargo da rejeição e da dor.

Antes ser amarga do que insípida.

Acho que a dor é o que dá o gosto à felicidade extrema. Quem é feliz sempre e tem uma vida perfeita, morre de tédio.

Não sei para onde serei levada da próxima vez, não faço idéia.

Sabe, o amor só me fode. É sempre minha ruína. Foi assim com muitos. O amor destrói, quando é forte demais. Mas como eu disse, confio na correnteza. Só saberei sobre o fim quando chegar à margem ou ao fundo.
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Mas foda mesmo é ler De Profundis e se identificar.

.: Clara Averbuck :. 9:24 PM

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