i gave my life to a simple chord

sexta-feira, julho 12, 2002

[10/7]

Mudei.
Não sou a mesma pessoa de antes.
Mentira. Sou sim, não posso evitar. Mudei só de casa.
Meu deus, que inferno que é mudar de casa. Nunca pensei que tinha tantas coisas. 2.177 caixas e 7.349 malas. Mais geladeira, fogão, máquina de lavar, o sofá, o carrinho de supimercado, a arara, a estante e os colchões. Imagina o que deve ser pra mudar uma casa de verdade, com móveis e tudo mais. Ouch. Se bem que as pessoas que têm casa, normalmente possuem reais para uma companhia de mudanças, o que facilita a vida de uma forma de jamais experimentarei.

A casa nova é foda. Me sinto na torre mais alta de um castelo. Olho pela janela, milhares de prédios e casinhas e crianças brincando no quintal das casinhas. Não tem sol. Só para elas, só na rua. The sun doesn't shine down here in shadow.

Puta bagunça, talvez um dia consiga arrumar tudo.

Meus gatos logo se juntarão a mim. Meus filhos queridos que estão na creche da Tia Gisele. Eles estão bem e gordos. Ela disse que o Joo abre todas as portas e mia muito. Meu amor felpudo deve estar com saudades. Eu também morro de saudades, minha vida fica vazia sem ele.

Na frente da janela tem o letreiro de uma confeitaria fodona. Não. Não. NÃO-O. Sem chance. A calça azul. Já engordei o suficiente. Mais um quilo e não caberei nela de novo, o que geraria uma séria crise. Sim, sou neurótica, algum problema?

Não trouxe tudo para a casinha nova, o Homem do Carreto Barato ainda não ligou. E preciso limpar minha casa. Digo, ex-casa. Está absolutamente imunda. Nunca houve tanto lixo em um só local na... esquece. Esqueci que moro em São Paulo. Acontece o tempo todo.

Dona Antônia finalmente conseguiu falar com Babai. Ela não discava o prefixo, nunca conseguiria mesmo. Mandou ele me dar um "pito" pelas paredes pichadas. Ela ainda não viu meu quarto. Espero que não seja cardíaca. Mesmo. Detestaria carregar a morte de uma velhinha nas costas para o resto da minha vida.

Fui às compras hoje, enquanto esperava o Homem do Carreto Barato me ligar, o que não aconteceu. Leite, pão, queijo, cereais, papel higiênico, desinfetante e uma garrafa de vinho muito barato. Troco de 5 reais. Foi-se meu dinheiro. Espero que paguem o que devem logo, senão não vou possuir reais para pagar o Homem do Carreto Barato, se é que ele vai aparecer algum dia.

Os dias têm simplesmente sido. Nem ruins, nem bons. Com exceção de ontem, que o Adriano me buscou e ficamos passeando e carregando coisas. Eu amo o Adriano. Ele finalmente me passou o cd com as bases da nossa super banda pra eu botar vocais. Será foda.

Os dias têm simplesmente sido. Passam como que puxados pela gravidade de algum buraco negro. Nem vejo. Anoitece e amanhece e tudo que eu fiz foi fumar meus Luckies e viver dentro da minha cabeça. Pensar até sair fumaça enquanto desempacoto minha vida. Desempacotar é tão ruim quanto empacotar. O James diz que unpacking é legal, porque você descobre coisas que já tinha até esquecido. "It's like christmas". Sweet James. Falamos ao telefone hoje por duas horas e meia. Impressionante. Faz quase um ano que nos conhecemos em Londres e continua a mesma coisa do primeiro dia. Mas ele está tão, tão longe que parece ficção. Que novidade. Ficção acontece comigo o tempo todo.

O relógio fazendo tic-tac-tic-tac em algum lugar da casa. Não sei onde está. Os minutos pingando como uma torneira estragada e o relógio carimbando e jogando-os nas gavetas perdidas da minha vida.

E eu aqui. Na mesma. Sempre igual, sempre diferente.

Preciso me perder. Preciso de algo muito quente pra me escaldar e me fazer chorar. Preciso de palavras que me façam flutuar mais alto do que antes. Preciso abrir aquela garrafa de vinho que está na cozinha. Preciso parar de dançar com o diabo. Às vezes ele me dá umas rasteiras bem bonitas. Mas eu caio e levanto com os joelhos esfolados e o filho da puta já foi embora, rindo. Um tiro só não vai me derrubar. Ele nunca me ganha. Nunca vai me ganhar. Vai tentar até o dia em que eu morrer e não vai me ganhar. Eu vou pro Céu da Cirrose. Está escrito desde que nasci: eu venci. E nada vai mudar isso, nem fome, nem frio, nem sono, nem falta de amor. Fico sozinha com as vozes na minha cabeça gritando tão alto que nem escuto mais.

Preciso me perder por essas ruas novas, cheias de luzes que piscam como que me chamando, sinalizando para que eu vá adiante.

Preciso parar de querer abrir aquela garrafa de vinho que está na cozinha. Não sei onde está o saca-rolhas.

Preciso dormir, estou com sono e minhas costas doem. Meu corpo está se rendendo, ando precisando dormir e as bolas já não fazem mais efeito sozinhas. Preciso de duas. Logo, precisarei de três. Então pararei de novo, até ver que não preciso delas. Sou mais forte do que qualquer comprimido idiota. Não preciso deles, apenas gosto. Não vou ser escrava de uma droguinha metida a besta que vem em cartelas. Não vou ser escrava de ninguém, nunca mais. Só de mim mesma.

Preciso dormir. Boa noite para quem não está ouvindo.

.: Clara Averbuck :. 4:30 PM

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