i gave my life to a simple chord

quinta-feira, junho 20, 2002

Lá estava eu, chafurdando no meu passado recente e vendo como foi perfeito. Nos conhecemos no aniversário do Fante. Tudo tão perfeito, as palavras como raios saindo de nossos dedos até o dia em que tudo foi para o ralo. Para o lixo. Acabou sem começar direito.

Ele só tem um defeito: não me quer. O resto é tão perfeito, tão perfeito que chega a ser ridículo. Não pode, sabe. Não se pode ser tão perfeito assim. Éramos perfeitos demais. Eu teria raiva se visse um casal como nós existindo por aí, os dois altos e luminosos e lindos e trocando olhares apaixonados e escrevendo e escrevendo e tendo os mesmos dons. Eu teria vontade de matar um casal como nós. Espancar com um ancinho. Mas tudo bem, porque não chegamos a existir fora do papel e da minha cabeça. Sem contar que foi daí que saiu o Vida de Gato. Deixo mais um pedacinho dele com vocês.

Vida de Gato
Mais uma produção Averbuck Studios S/A

(...)
Mas ele resolveu sofrer sozinho. Eu disse que agüentaria qualquer coisa, mas não contava com o silêncio. Não sabia onde ele estava e não queria, não podia telefonar. Queria ser seu refúgio, e a gente procura os refúgios quando quer fugir do mundo. Ele sabia onde me encontrar. Esperei. Com o coração apertado de novo, pressão na cabeça e uma puta dor na alma. Mas eu tinha o meu gato. Joo, meu amor felpudo, meu filho, a única criatura fiel neste mundo de merda. Eu, meu gato e meus cigarros. Noites em claro escrevendo e esperando alguma coisa acontecer, procurando algum remédio, algum remendo para minha alma esgarçada. Sabia que seria assim, sabia, sabia. Desde o começo, eu sabia. Meus alarmes tocavam quando olhava para ele, meu doce Arturo, todas as minhas luzinhas piscavam avisando do perigo, avisando que eu ia me foder de novo, que ia sofrer pra caralho, como nunca tinha imaginado, porque eu achava que sabia sofrer. Eu também achava que sabia amar. Mas eu não sei fugir.

Sobrou um isqueirinho dele. Um isqueirinho rosa, dos mais fuleiros, do qual eu cuidava melhor do que cuidava de mim. Ninguém dá bola para uma droga de isqueiro barato, as pessoas acendiam seus cigarros e iam enfiando omeu isqueiro no bolso, malditos fumantes compulsivos ladrões de isqueiros baratos, e não entendiam por que eu ficava tão puta. Eles não sabiam de nada. Aquele isqueiro era do meu Arturo. Ele tinha comprado, ele tinha acendido seus primeiros cigarros em muito tempo com aquele isqueiro, na sala na minha casa, tremendo de nervoso. Ai. Tremendo de nervoso enquanto eu derretia só de olhar e pensava "eu estava certa, eu estava certa, é ele". Ele, Arturo, aquele que desapareceu depois de fazer planos comigo. Que morreu de dor por outra mulher enquanto eu assistia em silêncio, apenas respirando, tentando fazer algo útil com a tempestade que aquilo causava no meu estômago, repetindo ia passar, era apenas a dor do parto, uma criança chorando porque cortaram seu umbigo, era uma nova vida, um novo dia, tudo novo, uma casa nova, uma gata nova, e eu, que seria sua nova mulher, estava ali para estender a mão quando ele estivesse pronto para ficar de pé e olhasse para cima e me pedisse para ficar com ele.

Mas ele não pediu. Não disse mais nada.

Silêncio.

Sobrou um isqueiro rosa, já no fim depois de tanta espera.

(...)

E se tudo der certo, queridos leitores, este será meu segundo livro lançado e terceiro escrito. O segundo escrito vai ficar para depois, quando todos os envolvidos estiverem mortos e protegidos. Agora não dá. Escancaro minha vida, mas só porque é minha. Não tenho o menor direito de fazer isso com a vida alheia.

Vou ali.

.: Clara Averbuck :. 5:41 PM

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