i gave my life to a simple chord

quarta-feira, maio 08, 2002

Whatever happened to my rock'n'roll

Descobri um trauma.

Não tenho muitos traumas, fora a obsessão pelo corpo perfeito que nunca vou ter. Mas descobri que tenho um puta trauma de rejeição. É novo e a origem dele é bem óbvia. Faz quase um ano que só levo toco. Só pé na bunda, só não. Não posso, não quero, não dá, não consigo. Pouco importa do que o não vem acompanhado, o que importa é que vem e no fim, fico sozinha de novo. E tem uma hora que dá vontade de gritar CHEGAAAAAAAAAAA e sacudir todo mundo e perguntar qual é o problema, o problema real, sem enrolação e sem disfarces. Porque deve ter alguma coisa muito séria.

Há um tempo atrás, fiz um daqueles friendtests, para testar se os amigos realmente te conhecem. Tinha uma pergunta que era "qual é o meu maior medo". As opções eram:

1. Ficar velha e gorda
2. Ser medíocre
3. Ser óbvia
4. Ficar completamente maluca antes dos 30 anos
5. Morrer sozinha e desconhecida e pobre e miserável e sem dentes nem discos nem dignidade

A certa era a quatro, mas mudou. Não tenho mais medo de ficar louca, aprendi a canalizar todo meu potencial psicótico para este lindo blog cor-de-rosa. Meu medo agora é ficar sozinha, mas confesso que já me acostumei à idéia. Comecei a me dar conta durante uma conversa com um rapaz aqui em casa. Por algum motivo que não lembro, eu disse que os gatos eram sempre parecidos com os donos. Mais tarde, quando fui escoltá-lo até a porta do prédio, o Joo desatou a miar desesperadamente, como faz todas as vezes em que saio de casa. Ele mia muito e vai para a janela e fica me olhando, me pedindo pra não sair, me pedindo pra ficar ou voltar rápido. Comentei que ele tinha pavor de ficar sozinho. Eis que o rapaz perguntou

- E você? Também tem pavor de ficar sozinha?
- Eu não!
- Mas os gatos não são sempre parecidos com os donos?
- ...

Ponto para os me-ni-nos. Ele foi embora e fiquei pensando muito nisso. Naquele dia, cheguei à conclusão que não, eu não tinha medo nenhum de ficar sozinha, gostava de ser totalmente livre e de viver sem neuroses, sem ter que dar satisfações e sem expectativas. Não tem nada pior do que jogar as expectativas em cima de outra pessoa; as chances de decepção são enooormes. Mas é impossível não ter expectativas. Por mais que você tente, é impossível.

Destesto grude. Detesto gente que liga duzentas vezes por dia, detesto quando banalizam eu te amo, como os maus poetas fazem há tanto tempo, detesto ter que explicar atrasos ou falta de telefonemas ou falta de tempo ou de saco ou simplesmente vontade de ficar sozinha. De neurose, já tenho as minhas e a última coisa que preciso é ter que aturar as alheias. Ficamos assim, eu não neurotizo e você não neurotiza. Só que não vou ficar me esquivando de nada só porque não quero neuroses. Isso já seria mais uma neurose. Especialmente, porque não existe nada que se compare à entrega total, que nunca é unilateral. Nada se compara a ver alguém com os braços abertos, dizendo "vem", e você vai, e aquele abraço é quase como um bálsamo para todas as feridas ainda meio abertas. Nada se compara à sensação de acordar do lado da pessoa amada e olhar para ela tão forte que ela sente e acorda. Dá uma enorme vontade de mandar o mundo inteiro às favas, porque parece que você não precisa de nada além daquela coisinha na sua cama, na sua vida, no seu lado pra sempre, até que acabe.

Oh well, parece que isso simplesmente não é pra mim. Resta escrever, que aparentemente é o que me fode e o que me salva.

Ou não. Pode ser apenas neurose.

.: Clara Averbuck :. 3:46 AM

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  • wanna find me?
  • miau?
  • me espalhe, sou uma peste
  • eu leio a bust