i gave my life to a simple chord

segunda-feira, maio 27, 2002

Vida de Gato

Enquanto eu vou ali ESCREVER COMO UMA DEMENTE, deixo com vocês, leitores carinhosos e queridos que me mandaram duas toneladas de emails fofos de aniversário, com um pedaço do meio do meu livro novo. É muito sem graça botar logo o começo, então escolhi um miolinho.

(...)

Mas eu precisava voltar para São Paulo. Acendi um cigarro e fui até a janela. Senhoras e senhores, à esquerda, temos o mar. Puta que pariu, o mar. Rio de Janeiro, maldita vadia sedutora que não me deixa ir embora. Preciso ir, querida, preciso ir, me dá um beijo, me olha nos olhos com o mar estourando branquinho na praia, deixa o teu sol entrar nos meus ossos, dá forças pro meu corpo cansado e fodido, meu corpo de velha, meu corpo de velha de vinte e dois anos. Meu corpo estava fodido, completamente fodido, acabado, meu fígado dava sinais de desistência depois de acelerar comigo por muitas e muitas voltas. Minha pele ia ficando amarelada, meu estômago rejeitava certas comidas, e foi quando tomei a decisão de só beber vinho. O médico contestou; nem vinho, Camila. Nada de álcool. Certo, certo, o senhor não gostaria também de cortar minhas duas pernas e furar meus olhos, Doutor? Como assim, sem álcool? Ele estava delirando. Tive certeza disso quando ele proibiu também minhas Boletas da Alegria, meus Inibex, fiéis companheiros desde a adolescência, que me mantinham cabendo em minhas calças. Olha, Doutor, não vai dar. O senhor me desculpe, mas não vai dar mesmo. Não posso ficar sem beber. Preciso disso para pensar, Doutor. Não, preciso disso para parar de pensar. Na verdade, preciso disso pra colocar os pensamentos em ordem, em fila, para chegarem no guichê um de cada vez. Senão parece que minha cabeça é uma feira livre, com duzentas pessoas gritando ao mesmo tempo. O senhor entende, Doutor? Não, não acho uma boa idéia ser internada. De verdade. Não, Doutor, não acho necessário. NÃO. É o seguinte: ou o senhor me arruma uma droga que não me mate, ou eu continuo bebendo e tomando bolas e morro. Sim, é problema meu, lógico. Mas o senhor não está aí, tentando dar soluções? Eu já disse o que acho. Ah, vá o senhor tomar no rabo. Se o senhor não fosse conveniado, pegava meu dinheiro de volta. Passar bem.

Botei minha mochila nas costas, meu óculos de sol, peguei meu diskman e fui pra rua. Ainda ia morar no Rio, em Copacabana. Comer camarão e andar descalça. Escrever olhando pro mar. Respirar fundo e sentir meus pulmões salgados ao invés da fuligem que São Paulo tinha para me dar. Não queria nada do que São Paulo tinha, mas alguma coisa me mantinha por lá. São Paulo é como uma mulher que você não consegue deixar, uma mulher velha, feia, com rolinhos no cabelo e creme na cara, que grita e ouve óperas e usa perfumes azedos, e você não agüenta mais, não agüenta mais ouvir aquela voz, ver aquela cara, mas também não consegue se livrar daquilo porque no fundo, lá no fundo, você gosta dela. As crianças já foram embora, casaram, seria fácil pedir o divórcio, mas você simplesmente não pode. Deve ser alguma espécie de karma.

Entrei no ônibus e sentei no fundo. Dormi. Acordei com o cobrador pisando no meu pé e avisando que era o fim da linha. Levantei, meio tonta, desci, comprei minha passagem e entrei no ônibus de 1950, que sacodia como um pau-de-arara e tinha interruptores de luz para a descarga e a torneira do banheiro. Interruptores de luz. Um lixo.

Adeus, meu amor. Até a próxima. Preciso ver a vaca da minha mulher. Inferno, aí vou eu.



.: Clara Averbuck :. 8:26 AM

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