i gave my life to a simple chord

sexta-feira, maio 24, 2002

Nina Simone.
Essa mulher.
Essa negona mal-humorada que me olhou torto no show de São Paulo, em 99, e eu saí do caminho, já com 12cm, morrendo medo de levar um socão no olho. Se bem que seria uma honra.

Damn, ela me mata. Ela me toca e me mata e me torce e me faz ouvir cds inteiros no repeat por dias a fio, me faz cantar de olhos fechados e os punhos cerrados deitada no escuro do meu quarto, me faz aprender uma língua que não sei só pra poder cantar Ne Me Quitte Pas direito, me faz escrever por noites e noites e noites só por causa de uma frase. A frase pode nem ser dela, mas parece que tudo que vem dela, é dela. Como Ne Me Quitte Pas, You've Got To Learn, Love Me Or Leave Me, I Get Along Without You Very Well (Except Sometimes), See Me When You Can, Feeling Good e até I Put A Spell On You. Tudo dela. Ela rouba as músicas e ninguém nunca mais consegue pegar de volta. Tem esse disco, gravado ao vivo em 64, chamando Nina Simone In Concert. Nele tem Go Limp, uma "aversão" dessa musiquinha folk chamada Pirate Jenny, onde ela fica conversando com o público, e ri, e os obriga a cantar, e tem total controle sobre aquela gente. É impossível dizer "não" à Nina Simone. Dr. Nina Simone. E quando ela ri muito porque esqueceu um pedaço da letra, também fico rindo aqui, porque eu amo aquela mulher e a risada dela me deixa feliz. E em outro disco, quando ela chora cantando Why? (The King Of Love Is Dead), em homenagem a Martin Luther King, eu choro junto, porque é muito real, muito fodido, muito forte. Como tudo que ela canta. A voz dela tem a densidade de uma bofetada, não dá pra ficar impassível. E as músicas dela? Nobody's Fault But Mine. If I die and my soul be lost, nobody's fault but mine. E Mississipi Goddamn? E The Backlash Blues? E Do I Move You? E I WANT A LITTLE SUGAR IN MY BOWL? I want a little sweetness down in my soul. I could stand some loving, oh so bad. I feel so funny, I feel so sad. Pelo amor de deus. Chega, não posso ficar citando as músicas (não foi nem 1/3 do que ela merece) e lembrando delas e querendo escrever a letra inteira aqui. E nem falei sobre como ela espanca e acaricia o piano de um jeito que só quem sentiu muita dor consegue, só quem tem um tornado por dentro consegue. Damn, Nina. Que vontade de abraçá-la. Só isso. Abraçá-la por tudo que ela fez e é. A mulher deve ter uns 95 anos e continua fazendo shows. Verdade, a voz dela não é mais a mesma. Mas ela é. Mais sofrida, mais velha, mais e mais mal-humorada e mais bêbada. Mas é a Nina. E a Nina é só a cantora e pianista de jazz mais foda de todos os tempos. Só queria abraçá-la. Abraçá-la, dizer obrigado e eu te amo.

4'20AM

[Escrevi isso tudo arrepiada e com os olhos molhados. Só para registrar. Um dia eu ainda consigo escrever um texto sério contando a história dela sem me emocionar e perder a linha. Um dia. Lá longe.]

.: Clara Averbuck :. 11:50 AM

Acesse os arquivos por aqui:

  • wanna find me?
  • miau?
  • me espalhe, sou uma peste
  • eu leio a bust