i gave my life to a simple chord

domingo, abril 28, 2002

I wanna burn in heaven with you *

Sabe, eu amo e odeio este lugar. Amo e odeio na mesma intensidade. Eu amo esta casa, amo as estruturas, amo meu quarto e suas goteiras, amo o banheiro rosa, amo a cozinha desproporcional. Mas odeio este lugar. Odeio o barulho, odeio a Igreja dos Smurfs Cantantes, odeio as vans que gritam nos meus ouvidos o dia inteiro, Pinheiros-Largo da Batata, fooodam-se as batatas. Odeio o cheiro de pizza que invade os meus domínios com essas malditas serpentes de cheiro, malditas intrusas que vivem entrando pelas janelas e dando o bote. Eu quero paz, quero silêncio, não quero cheiros que não chamei entrando na minha casa. Minha casa. Estou dentro da minha casa, e aqui as coisas deveriam ser como eu quero. Mas não são. Há intrusos. O tempo inteiro, eles invadem minha casa, e eu nunca vejo nada, porque são só sons e cheiros, malditos sons e cheiros dos outros. Não chamo ninguém aqui, sinto como se fossem descobrir meus segredos. Não que tenha algo a esconder; definitivamente, não tenho. Mas não gosto de misturar cheiros e sons dos outros com meus cheiros e sons. Só quando eu escolho. Tento expulsar esta droga de cheiro de comida ruim de todas as formas, com óleos, incensos, perfumes, mas nada adianta, é mais forte e entra nos meus pulmões e me deixa enjoada, com nojo, com nojo daquela cozinha, daquelas pessoas que me olham estranho. Tenho certeza que os sujeitosque trabalham aqui embaixo acham que sou puta, só porque gosto de me vestir de mulher. Muita gente que me vê na rua acha que sou puta, e isso me orgulha, de certa forma. Putas são bonitas. Putas não são necessariamente vulgares. Uma puta pode ser aquela mulher tão inatingível, tão cara, tão macia e perfumada que pobres diabos como eles nunca vão possuir. É verdade, nunca vão mesmo, mas não porque sou cara. Eu sou bem baratinha, até. Se você conseguir me ganhar com palavras, como você fez, fujo para um barraco no lugar mais sujo do universo e transformo em um castelo. Um castelo de cartas, mas um castelo. Meu deus, chega logo, chega logo, estou descontrolada, não consigo parar de escrever e de expulsar cheiros intrusos do meu quarto, chega logo, onde você está? Um, dois, três, cinco incensos, e uma porra de cheiro de sopa invadindo meu quarto. Onde você está? Eu não saberia dizer, mesmo que soubesse, mesmo que você me desse a esquina exata e a latitude e a longitude. Eu sou uma perdida. Mas posso te guiar por outros lugares, posso te levar ao paraíso, não, não ao paraíso, o paraíso é um clichê branco cheio de anjos sem sexo e sem drogas e sem róque. Posso te levar ao Céu da Cirrose, você quer ir para o Céu da Cirrose comigo? Leminski e Hank estão lá, nos olhando, eles estão me esperando, e sei que não vou durar aqui. Fico só até terminar. Eles todos me esperam lá em cima, e sabe, não há muitas mulheres no Céu da Cirrose, e eles querem conversar comigo, e eu estou louca pra conversar com eles, mas antes preciso escrever, escrever, escrever, deixar muitos livros para que possa observar os candidatos lá de cima com eles, para que possa escolher quem entra lá. Porque nós somos escolhidos literalmente a dedo, sabia? Você não precisa morrer de cirrose, pode morrer de velho, de overdose, de câncer, pode morrer em um acidente, mas você precisa ser escolhido por eles. Somos escolhidos quando nascemos, eles dizem quem vai ser escritor, e somos julgados ao longo de nossas vidas, e a única coisa que importa é que no fim, reste a consciência de que precisamos escrever, mesmo que não tenhamos escrito o suficiente em vida. É se dar conta, bem perto do fim, que escrever é a nossa redenção. Então me dá a mão, eu sei que você não tem medo, me dá a mão e vamos, vamos para o céu.

* Escrito ontem para uma pessoa só, mas estou como ficou legal e estou chata demais hoje, resolvi postar, senão vou perder todos os leitores.

.: Clara Averbuck :. 12:11 AM

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