i gave my life to a simple chord

domingo, abril 21, 2002

Fatalidades

Eu só tenho uma coisa a declarar.



Sim. Eu fui parar lá. Por favor, não pergunte. Eu estava pacificamente indo para casa, depois de jantar no bar das Lésbicas da Montanha, já planejando o Tea Rocks e o Tea Jazz Festival e um monte de coisas que queria escrever, quando surgiu esse meu amigo na frente da minha e casa e nós fomos. Eram quase duas da manhã quando entrei.

Olha.

Na boa, assim.

EU NUNCA VOU CONSEGUIR GOSTAR DESSAS COISAS.

Não adianta. Hoje foi a última chance que eu tentei me dar pra gostar de unts. Já que eu estava lá dentro, já que tinha ido até aquele lugar na puta que lee pariu, resolvi deixar toda a má vontade na porta e ver se conseguia me divertir de alguma maneira.

Não. NÃO. Não rolou. Entrei em tudo quanto foi oquinha e tendinha, toda esperançosa, pensado "agora eu vou gostar", e nada. Não adianta. Tudo que eu estava cobiçando naquele lugar era uma barraquinha com róque. Quer dizer, no Rock in Rio não tinha a Tenda Eletro? Por que no Skol Beats não podia ter uma barraquinha róque para desintoxicação? Rapaz, eu estava me sentido cercada, para todos os lugares que eu ia tinha alguma coisa que eu não queria ver. Francamente, ninguém NUNCA MAIS pode ousar dizer que eu nunca "me abri". Eu estava mais aberta do que boca de fanho adormecido e NADA me apeteceu. Ei, não me olhe com esta cara, cada um tem sua música, assim como cada um tem sua droga. Eu, por exemplo, não posso fumar maconha que me faz mal, mas tem gente que curte horrores. Mesma coisa com música: não ouso dizer que música eletrônica é isso ou aquilo, até porque eu gosto de algumas coisas - Squarepusher é do caralho, Tricky é foda, mas são coisas muito diferentes, nada de unts unts unts no meu ouvido. O que me deixa em transe é ró-que. Eu sou do róque, não adianta. Do róque, do jazz, do funk e do soul. É o que temos. Eu gosto de guitarra e fim. Eu gosto de coisas feitas com feeling. Música eletrônica é... eletrônico demais. Não dá.

Como se não bastasse, o meu amigo não atendia a porra do telefone, então eu fiquei sozinha, perdida, abandonada, com frio e sono e sede até às quatro da manhã, que foi quando ele resolveu atender aquela droga de telefone dele. Não fez muita diferença, na verdade; fui ali, cumprimentei a senhora dele e a amiga da senhora dele, fui pro cemitério, que era uma grande tenda com colchões de ar, e DORMI MUITO. Muito. Daí eu estava dormindo MUITO e senti algo pegando no meu pé. Abri um olho, porque sou um cartoon que abre um olho só quando estou dormindo e sou acordada, e tinha este cara esfregando o meu pé.

...

Abri o outro olho e fiquei com uma cara de "mas que diabos você está fazendo?", e ele tratou de se explicar, o que, admito, foi pior. Preferia não saber.

"Ah, não resisti, seu pé é lindo, eu tive que lustrar."

LUSTRAR??????????????????????????????????????????????????????

L U S T R A R ???????????????????????????????????????????????

Cara, fala sério, o meu pé é horrível, tem um calo estúpido por causa do ballet, estava IMUNDO, cheio de lama nojenta daquele chiqueiro, e o cara achou lindo e resolveu LUSTRAR??????????? O que eu ia dizer pra ele??? HEIN??? O QUE VOCÊ DIRIA SE O SEU PÉ ESTIVESSE NA MÃO DE UMA PESSOA DESSAS?????

Eu achei melhor não discutir. Quer lustrar, lustra. Maluco do caralho. Não abri a boca e fingi que ele era uma alucinação. Acho que funcionou, porque voltei a dormir e não lembro de ninguém fazendo coisas com meus pés.

Viemos embora de táxi e todos reclamavam de zumbidos no ouvido, menos eu, porque fui sábia e dormi. Mas como sou caridosa e sempre carrego cds na bolsa para casos de emergência, saquei o meu Black Rebel Motorcycle Club e pedi para o tio botar. Ele botou. E EU ESQUECI MEU CD NA PORRA DO TÁXI. O pior é que nós nem fomos para casa; paramos no McDonald´s para que eu fizesse minha despedida do mundo da fast food com um McChicken e um Sundae e passei minha última refeição inteira grudada na janela, que nem aqueles bichinhos com ventosas, na esperança que o tio fosse legal e trouxesse de volta. É claro que não aconteceu. Eu odeio o mundo. Preciso daquele cd. Preciso. Não durmo sem ouvir BRMC. Preciso de uma dose todos os dias. Ainda bem que o meu amigo gravou pra ele, daí eu vou poder gravar de volta pra mim até meus pais voltarem de NY com minha nova cópia, já devidamente encomendada junto com meia tonelada de singles e discos e livros. Porra, o pior é que aquele disco tinha história. Comprei quando trabalhava na Bizarre. Ele estava lá, jogando na estante, e eu nem dei muita bola porque o nome não me atraía nem um pouco. Então este cara chegou e pediu para ouvir. E eu me apaixonei no primeiro acorde. I fell in love with a sweet sensation. I gave my heart to a simple chord. I gave my soul to a new religion e decidi que aquele cd seria meu naquele dia. E convenci o cara de que o cd era muito caro, importado, e que sairia nacional pela Trama no próximo mês, e que ele deveria esperar porque os cds da Trama eram baratinhos, o que era uma grande mentira deslavada, porque o cd não saiu aqui até hoje e nem tem previsão. Feio, muito feio. Depois não sabem porque fracassei enquanto balconista. Mas foi por uma boa causa. Eu precisava daquele disco. E eu preciso dele agora, mas o taxista deve estar jogando frisbee com o cachorro neste momento. Então eu vou ali terminar de me despedir do chocolate, porque não posso nunca mais comer chocolate, nem fritura, nem nada. Não que eu comesse alguma coisa antes, nem curto essas coisas, venho de família natureba e adoro comer grama, mas agora eu certamente vou querer muito comer porcarias, só porque não pode. Odeio não poder. Odeio o dia de hoje.

.: Clara Averbuck :. 5:32 PM

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